domingo, 25 de março de 2007

Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie - parte III

"Tendo em vista esse posicionamento pessoal, percebi a necessidade de externar alguns pensamentos sobre a temática, e decidi direcioná-los para a análise de uma experiência específica, a da antiga Alemanha Oriental (República Democrática Alemã – RDA), que me desperta já há algum tempo, curiosidade e perplexidade.

Em 2000, viajei à Alemanha e tive oportunidade de conhecer a fascinante capital germânica. Há muitas coisas a serem vistas em Berlin, desde o Museu Pergamon ao Portão de Brandenburg, passando pela Alexanderplatz e pelo Reichstag reconstruído, mas minha maior curiosidade era, desde antes de minha chegada, ver de perto e conhecer melhor a história do símbolo maior da Guerra Fria: o Muro de Berlin. Visitei as partes do Muro que ainda permanecem de pé e o Museu Checkpoint Charlie, localizado no ponto principal de travessia entre os dois lados da cidade. Ao me deparar com as fotos e as diversas histórias relatadas e ao conversar com alguns berlinenses de ambos os lados da cidade (os quais fiz questão de percorrer), pude perceber o quanto a experiência de ver dividida sua cidade por mais de quarenta anos e de viver em dois regimes políticos completamente distintos, marcou o espírito do cidadão da atual capital alemã. Especialmente o cidadão da antiga República Democrática Alemã e sua dificuldade de se integrar à economia capitalista e ao regime político democrático da República Federal da Alemanha.

Mais recentemente, vi-me impelido a escrever estas linhas após ter assistido o fabuloso filme de Wolfgang Becker, intitulado “Adeus Lênin”. Drama cômico ambientado na Berlin de 1989-1990, a película cinematográfica narra a história de Alex Kerner, jovem alemão oriental que vê sua mãe entrar em estado de coma um mês antes da queda do Muro e acordar somente oito meses depois, sem saber da referida mudança e sem poder sofrer emoções fortes, visto que não resistiria a um segundo infarto. Para esconder a nova realidade da mãe, que era uma socialista convicta e fiel aos ideais da RDA, o jovem Alex cria no quarto de sua genitora um mundo inteiramente fictício, como se o Estado alemão oriental ainda existisse plenamente e nada tivesse mudado. Produz, com a ajuda de um amigo, até mesmo telejornais da RDA. Embora bastante lúdico e divertido, o filme revela em muitas passagens, aspectos curiosos da vida na antiga Alemanha Oriental, como a ação do Stasi (a polícia secreta) na fiscalização da vida dos cidadãos, assim como a forma de doutrinamento dos alemães orientais na ideologia socialista da RDA, envolvendo desde canções patrióticas infantis até os noticiários impressos e televisivos, sempre exaltando os grandes feitos da pátria socialista alemã, de seu governo e de seus cidadãos.

A experiência a ser debatida nessas linhas é justamente a experiência autoritária vivida naquele país à luz da reflexão desenvolvida por diversos autores, aliada a uma modesta contribuição de ordem pessoal à discussão."
Continua em breve...

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