quarta-feira, 21 de março de 2007

Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie - parte II




As diversas faces do autoritarismo e da intolerância


O texto a que me referi na postagem anterior foi publicado em 2005 com o título "Entre os Sonhos de Rosa Luxemburg e a Realidade de Erich Honecker - Para Não Esquecer as Lições da Antiga República Democrática Alemã". Como prometido, aí vai o início da transcrição.



"“Todavia, os mortos do lado oriental tinham sido fuzilados, linchados, executados. Além disso, penas de prisão foram impostas. A penitenciária de Bautzen ficou superlotada. Isso tudo veio à tona só muito mais tarde. Anna e eu vimos apenas impotentes atiradores de pedras. Mantivemos distância a partir do setor do lado ocidental. Amávamos muito um ao outro e à arte e não éramos operários que atiravam pedras na direção de tanques. No entanto, desde então sabemos que essa batalha continua acontecendo. Às vezes, e então com décadas de atraso, até mesmo os atiradores de pedras serão os vitoriosos” (Günther Grass - Meu Século).


1. A pretexto de uma nota introdutória – a divisão da Alemanha no olhar curioso de um brasileiro

O presente ensaio tem motivações de ordem fortemente pessoal. Tenho tido a preocupação, ao observar a ascensão do denominado neoliberalismo tecnocrático (para utilizar a expressão do Professor espanhol Javier Ruipérez) no mundo, de estabelecer reflexões sobre o autoritarismo no exercício do poder político. O apregoado “fim das ideologias” e a ascensão do pensamento “único” neoliberal têm propiciado, de um lado, a conformação da maioria dos atores políticos democráticos à opinião de que não há salvação fora do referido modelo, e de outro, a crescente insatisfação da sociedade com tal conformismo e a preocupante ascensão de ideários não democráticos como alternativas ao status quo. É de se destacar a pesquisa feita em 2004 pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe – CEPAL - que atesta a preferência dos latino-americanos por Estados autoritários que resolvam os problemas econômicos da sociedade em lugar de Estados democráticos que não os resolvam. As tendências autoritárias atingem também outras áreas do mundo: nos EUA, a preferência por uma candidatura presidencial construída com base no terror (temor da ameaça terrorista), aceitando até a comprovada inverdade acerca das motivações para a invasão do Iraque e a diminuição das garantias e liberdades civis e políticas tão caras historicamente aos norte-americanos; no Oriente Médio, a crescente mobilização das tendências autoritárias fundamentalistas combatendo até mesmo os muçulmanos moderados que buscam dialogar com o ocidente; a persistência do autoritarismo estatal em países como China e Coréia do Norte, com ameaças de toda ordem; até mesmo na Europa, tendências autoritárias têm se manifestado (neonazistas austríacos – Jörg Haider e o Partido da "Liberdade" (Freiheitspartei) - e alemães, extrema direita francesa – Jean Marie Le Pen), embora substancialmente minoritárias. Enfim, a democracia corre perigo.

Aí vem inequivocamente a angústia pessoal: particularmente, não creio em soluções para quaisquer desses problemas, da pobreza ao terrorismo, fora do âmbito democrático. Bem ou mal, sempre foi dentro do regime político democrático que pudemos discutir as nossas próprias imperfeições e injustiças e trabalhar para modificá-las. Em torno de “pensamentos únicos” ou “ideologias únicas”, por mais generosos que possam ser, terminamos por descambar para o arbítrio puro e simples daqueles que exercem o poder político, sempre com altos custos humanitários, como se pode perceber nas experiências autoritárias de todas as roupagens ideológicas."


Continua nos próximos dias...

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