segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Iwo Jima: o olhar japonês sobre a guerra

Diante da impossibilidade, por motivos de saúde, de brincar o maravilhoso e inigualável carnaval pernambucano dos 100 anos do frevo (depois falarei sobre o mesmo), resolvi inaugurar as postagens deste blog comentando um dos mais novos trabalhos cinematográficos de Clint Eastwood que assisti neste domingo, intitulado "Cartas de Iwo Jima". A ilha japonesa, palco de batalha decisiva para a vitória dos EUA sobre os japoneses na 2ª Guerra é o cenário desse belo e triste filme, tendo este grande diretor se superado mais uma vez.

A proposta do filme, segundo li, é mostrar a visão dos japoneses que lá estavam sobre o conflito com os norte-americanos. A meu ver, o intento é extremamente bem sucedido. Apesar de Eastwood ser norte-americano, sua postura de diretor foi extremamente respeitosa para com a cultura nipônica, a começar pelo idioma (o filme é praticamente todo falado em japonês) e pela abordagem feita pelo roteiro de Paul Higgis (o mesmo roteirista de "Crash"), valorizando os aspectos do comportamento do japonês como soldado e como homem comum sob o prisma daquela cultura.

Com o excepcional ator Ken Watanabe ("O Último Samurai", "Memórias de uma Gueixa") interpretando o General Kuribayashi, comandante do Exército japonês nesta batalha, o filme mostra, sem retoques, as angústias que vivem soldados e comandantes de um batalhão que se vê praticamente perdido diante da superioridade inimiga, mas precisa fazer algo para cumprir com seus deveres de defesa da pátria e de seus compatriotas. Trata-se de uma batalha desesperada que, em que pese a superioridade bélica das forças dos EUA, a impressionante disposição e força de vontade dos militares do Japão faz com que Iwo Jima se afogue em sangue antes de sucumbir.

Cenas muito fortes estão presentes, como o suicídio de inúmeros soldados derrotados, ritualizando a tradição dos antigos samurais que se consideravam desonrados quando eram derrotados em batalha e a vergonha da desonra não os permitiria mais viver (no Japão tradicional, a honra é valor superior à própria vida e viver sem honra é como morrer em vida). É curioso, porém, perceber que Kuribayashi não compactuava com a idéia de suicídio antecipado com a iminência da derrota, defendendo que seus comandados lutassem até o fim (mais valia para ele um soldado derrotado combatendo em nova batalha e recuperando sua honra do que morrer por suas próprias mãos). Ele queria vencer e viver, como se pode esperar de qualquer ser humano naquelas condições.

O momento mais comovente do filme se dá na transmissão por rádio do coral de crianças cantando a confiança do povo japonês nos soldados de Iwo Jima, enquanto estes eram bombardeados e massacrados pelas forças norte-americanas, apesar da bravura com que resistiam, honrando seus antepassados samurais.

"Cartas de Iwo Jima" possui um tom antibelicista, mas sua grande virtude, a meu ver, é apresentar isso de forma reflexiva e ponderada, em imagens e palavras que fazem pensar sobre a guerra e suas razões, sem essa de "bonzinhos" e "mauzinhos", maniqueísmo que permeia a grande maioria dos filmes norte-americanos sobre o tema. Em Iwo Jima, não há mocinhos e bandidos, há apenas a guerra, seus eventos e sua (in)sanidade.

Vale a pena conferir (compensou um pouco minha ausência dos festejos de Momo).

2 comentários:

Catarina disse...

Perfeito, Bruninho...que bom poder compartilhar seus pensamentos com a gente que morre de saudades do convívio de antes. Ainda estou meio "zoró" dos batuques no Pátio do Terço. Faltou você e Ana por lá. Quando você estiver melhorzinho e for na Pós (tá chegando o dia) a gente faz um carnaval fora de época pra você aproveitar um pouquinho.
Adorei seu blog, visitarei sempre. Beijo.

Alexandre da Maia disse...

Grande Blog, Bruno. Parabéns!

Abração, da Maia