segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Revolução Russa: 90 anos depois

Não poderia deixar findar o ano sem comentar o noventenário de um dos mais importantes acontecimentos do século passado, quiçá da história da humanidade: a Revolução Russa de 1917. Para o bem ou para o mal, é impossível ignorar a influência e os importantes desdobramentos da história contemporânea diante desse grande movimento político que culminou na criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e serviu como lumiar ideológico para milhões de pessoas em todo o mundo.

Trata-se de um grande levante popular que provocou uma drástica ruptura com o modelo de Estado então predominante. Tal movimento composto por diversas tendências ideológicas, terminou por ser capitaneado pelos bolcheviques, mais disciplinados e organizados, liderados por Vladimir Lênin que se tornaram a "vanguarda" revolucionária, tomando o poder para si. Com o esmagamento da contra-revolução, Lênin e os bolcheviques começaram a construção de um modelo de Estado calcado nos princípios socialistas marxistas interpretados e condicionados à teoria leninista.

Parecia que finalmente a burguesia sucumbira e era inaugurada a primeira experiência socialista no mundo. Um Estado voltado aos anseios da classe trabalhadora que promoveria a igualdade e a fraternidade entre os homens sem as odiosas diferenças de classes sociais, caracterizadoras do capitalismo liberal e dos demais sistemas político-econômicos. Uma sociedade sem opressores nem oprimidos.

Entretanto, a profecia marxista não se realizou. Ao invés de se encaminhar para uma extinção do Estado (que seria o verdadeiro comunismo), verificou-se o seu fortalecimento, até pela situação de isolamento que a Rússia, e posteriormente União Soviética, passa a sofrer (internacionalismo revolucionário de Trotsky x socialismo em um só país de Stalin). A vitória da revolução proletária não se deu em um país de capitalismo liberal avançado como Reino Unido ou França, mas na atrasada e semi-feudal Rússia, um dos países que, segundo o próprio Marx, menos teria condições de fazê-la. A revolução não se espalhou no mundo ("proletários de todos os países, uni-vos", dizia Marx) e o que tivemos foi a ascensão de tendências totalitárias de direita, como o nazi-fascismo que se alastrou pela Europa. Somente com a vitória na 2a. Guerra Mundial, a URSS pôde alastrar sua influência pelos países do leste europeu e de outros continentes (China de Mao Tsé-Tung, Cuba de Fidel Castro, Vietnã de Ho Chi Minh), no primeiro caso, devido ao importante papel do Exército Vermelho na libertação dos países dominados pelos nazistas.

Também a generosa utopia de Marx não foi alcançada pelos Estados socialistas. O sonho igualitário terminou por tornar-se tenebroso pesadelo totalitário, sufocando a crítica, a oposição e o dissenso. O que Lênin afirmara ser um estado transitório de terror revolucionário torna-se permanente com o gangsterismo político de Iosif Stalin, a partir do momento em que este ascende ao poder na URSS. O stalinismo é um dos períodos mais trágicos da história do comunismo, responsável diretamente pela morte de mais de 20 milhões de pessoas, nas estatísticas mais generosas para com seu mentor. O ditador soviético é, em números absolutos, o governante que mais matou seres humanos na História.

Depois vieram Mao Tsé-Tung na China com episódios terríveis como a Revolução Cultural, Enver Hoxha na Albânia, o tenebroso STASI alemão oriental, a tragédia humana no Camboja de Pol Pot (eliminou 20% da população cambojana entre 1975 e 1979).

A pergunta que nunca cala: como pôde uma doutrina generosa e humanista ter descambado para a produção de tantas e tão freqüentes tragédias? Seria o caso de doutrina apenas aparentemente libertária, mas trazendo em sua essência novas formas de autoritarismo e opressão? Seria o caso de distorção da teoria marxista pelos marxistas "práticos"? O marxismo então não seria mais do que uma utopia?

Por ora, parece que sim. As revoluções feitas em nome do marxismo degeneraram em regimes políticos totalitários prometendo justiça social em lugar da liberdade e não alcançando afinal nem um dos dois. Trocar liberdade por igualdade não parece um bom negócio em nenhuma circunstância. Os regimes em questão formaram novas burocracias e novas classes dominantes em lugar das antigas, perpetrando a dominação classista, paradoxalmente disfarçada de Estado proletário. Quem dissentisse era simplesmente eliminado, como foi a quase toda a velha guarda bolchevique nos anos stalinistas. No final, nem liberdade, nem igualdade, apenas o terror e o Estado policial.

Por outro lado, diferentemente do que ocorreu com o nazismo, em que já no Mein Kampf de Hitler havia claramente uma pregação anti-semita, nada nos escritos de Karl Marx justifica a carnificina feita pelos seus adeptos em nome dos seus ideais. Por essa razão é que vejo o marxismo como uma utopia, apesar da insistência em se afirmar como socialismo "científico".

De positivo, é importante frisar que a Revolução Russa trouxe concretamente para a agenda mundial o combate à deisgualdade social. Keynes e os artífices do welfare state devem muito à célebre revolução cujos ventos influenciam o enfraquecimento do liberalismo econômico e sua substituição pela idéia de um Estado de bem estar social, ainda capitalista, mas não mais liberal ortodoxo. Nem os EUA escaparam incólumes do welfare state, que o digam as políticas sociais do new deal de Franklin Roosevelt.

E é a partir daí que tais idéias associadas à autêntica social democracia promovem um modelo estatal que procura conciliar liberdade e igualdade e que até o momento são as experiências humanas mais bem sucedidas em alcançar progresso econômico e social com liberdade e qualidade de vida, haja visto o exemplo dos países nórdicos europeus como Suécia, Noruega e Dinamarca.

Aos socialistas saudosistas, ficam as imagens da antiga URSS ao som do hino russo-soviético, cuja melodia de tão bela que é, foi mantida pela atual Federação Russa, apesar da mudança na letra: http://www.youtube.com/watch?v=GChyobt8Cpo. A mim agrada mais o "vento da mudança" da linda canção dos Scorpions, em bela versão com orquestra (na Praça Vermelha/Moscou, palco da Revolução de 1917): http://www.youtube.com/watch?v=HxobuyB4H38&feature=related.

FELIZ 2008 A TODOS. MUITA PAZ, SAÚDE E FELICIDADE.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Stanley Kubrick V: Doutor Fantástico (ou de como parei de me preocupar e amar a bomba)



Já estava com saudades de falar sobre cinema. Nada melhor do que voltar à tona com mais um filme do grande Kubrick. Desta vez, fico com o genial filme intitulado "Dr. Strangelove (or How I learned to stop worrying and love the bomb)" que recebeu no Brasil o título de "Doutor Fantástico". Foi baseado no livro "Alerta Vermelho", de 1958, de autoria do ex-tenente da RAF (Royal Air Force) britânica Peter George.

Trata-se de uma comédia sarcástica, puro humor negro, e acima de tudo bombástica, considerando que aqui Kubrick brinca não somente com fogo, mas com armas nucleares. O filme é em preto e branco e data de 1963, em pleno auge da Guerra Fria e com a lembrança recente de episódios como a Crise dos Mísseis em Cuba. Fazer um filme como esses, satirizando com humor o horror e a insanidade de uma guerra do gênero somente com muita ousadia, o que nunca faltou ao célebre diretor novaiorquino.

No início dos anos 60, um general do alto comando das Forças Armadas norte-americanas enlouquecido com a paranóia anticomunista ordena um ataque à União Soviética. Ao fazê-lo, torna os aviões e a base militar incomunicáveis, o que gera um alerta de emergência na Casa Branca e no restante do alto comando militar. O Presidente dos EUA precisará entrar em contato com o premiê soviético com a finalidade de tentar fazer voltar ou mesmo abater seus próprios aviões para evitar a guerra nuclear, apesar da resistência de vários oficiais norte-americanos paranoicamente anticomunistas.

Tudo isso é mostrado com incrível bom humor e sarcasmo, principalmente pela atuação espetacular de Peter Sellers em três papéis distintos: o Capitão Mandrake, assistente do general enlouquecido, o Presidente dos EUA e o próprio Dr. Fantástico, um ex-cientista alemão nazista cooptado pelos norte-americanos e conselheiro da Casa Branca. A cena do Presidente estadunidense discutindo com o premiê soviético completamente embriagado é hilária, bem como a afetação do Dr. Strangelove. A cena final da destruição nuclear em massa com o acionamento da Máquina do Juízo Final é de uma ironia inteligentíssima, como poucos diretores souberam fazer na história do cinema.

Com a película, Kubrick traz à reflexão temas complexos e delicados para o tempo em que filmou: a insanidade de uma guerra nuclear, os riscos latentes e desesperadores da Guerra Fria, a cooptação de cientistas nazistas pelos EUA, o fanatismo dos anticomunistas capitaneados pelo macarthismo e o mais assustador: o perfil de muitos dos responsáveis por decisões tão drásticas a respeito. Oficias militares da época chegaram a comentar sem se identificarem, por óbvio, que muitos dos altos comandantes militares norte-americanos eram exatamente como exibido no filme. Isso para não falar nas convocações de Kubrick a prestar esclarecimentos ao Estado de como obtivera tantas e tão precisas informações sobre as forças armadas que, em tese, deveriam ser absolutamente sigilosas. O célebre diretor nunca se pronunciou publicamente a respeito.

Às vezes, confesso, possuo as mesmas apreensões de Kubrick sobre a (in)sanidade dos líderes e sua (in)capacidade para lidar com questões tão problemáticas. Será que o mundo mudou muito em relação a isso?

Enfim, mais um grandioso clássico da filmografia do velho Stanley, obra-prima e capítulo especial da história da sétima arte. Bom demais.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Comentando os comentários sobre a CPMF

Semanas atrás opinei neste blog sobre a CPMF antes de sua prorrogação ser derrotada no Senado Federal. Acreditava e continuo acreditando que o problema tributário no Brasil é a sua alta carga fiscal como um todo e não a CPMF como tributo em particular, considerando que a última é um dos tributos menos injustos, considerando seu alcance e sua praticamente impossibilidade de sonegação. Dois leitores fizeram comentários, ambos contrários à minha opinião e nenhum dos dois quis se identificar. Gostaria de utilizá-los como exemplo para o que sempre digo aqui em defesa da aceitabilidade e tolerância com o dissenso e a divergência de posicionamentos, para mim, essência da democracia.

O primeiro leitor discordou de minha opinião de forma civilizada e sem qualquer ataque à minha pessoa, rebatendo meus argumentos com outros igualmente sólidos (quiçá até mais do que os meus), refletindo, como procuro aqui fazer, não em relação a este ou aquele governo específico, mas se o referido tributo é institucionalmente bom ou não para o país. O segundo, ao contrário, partiu para o ataque pessoal e corporativo (já que disse que os professores da Faculdade são todos "chumbetas" de Lula) sem apresentar qualquer argumento consistente ou até mesmo infundado.

Como podem perceber, este blog é um espaço de liberdade de expressão, inclusive dos que discordam de mim e é por isso que publico seus comentários. Para mim, isso é essencial, democracia é sobretudo administrar o dissenso. Porém, infelizmente, nem todos possuem o mesmo espírito de tolerância e diálogo e tentam logo desqualificar o interlocutor, posto que não conseguem rebater seus argumentos. Partem logo para o maniqueísmo puro do tipo "quem não é por mim, é contra mim", distorcendo o contexto bíblico e transformando-o nas razões do lobo da fábula de Fontaine.

Ora, todos os que acompanham este blog sabem que votei em Lula e nunca escondi isso. Todavia, isso não me coloca como alguém que tenha que aceitar tudo o que seu governo faça. Como sou apenas um simples Professor universitário e não tenho quaisquer pretensões de candidatura nem mesmo a síndico do meu prédio, analiso os fatos políticos e jurídicos a partir de uma visão institucional republicana, democrática e humanista e não associada a um ou outro governo. Se observarem as postagens anteriores, paradoxalmente, há muito mais delas criticando o governo Lula do que o aplaudindo, só que sem maniqueísmos. Reconheço muitas virtudes em seu governo, assim como também vejo inúmeros defeitos. O mesmo vale para o governo FHC que, aliás, foi o criador da CPMF (acho que o segundo leitor deve estar convenientemente "esquecido" disso). Ou seja, não sou nem lulista, nem anti-Lula, tenho minhas próprias opiniões (as opiniões não me têm) e se convencido do oposto, não hesito nem um pouco em mudá-las.

É preciso, caro amigo, analisar os fatos sem preconceitos e ter humildade de reconhecer que nem sempre acertamos e só o diálogo franco e aberto, tolerante e respeitoso quanto ao dissenso, pode fazer avançar uma sociedade realmente democrática. Se não aceita minhas palavras, reflita sobre o que escreveu Igor Gielow, em sua coluna de hoje no Jornal Folha de São Paulo:

"Apocalípticos e integrados

O maniqueísmo é um traço perene da humanidade, fazendo companhia à compaixão e à crueldade, por mais que seja açoitado por sistemas filosóficos aqui e ali. De que adiantaram contra ele todas as cabalas, os iluminismos, os tratados alquímicos, toda uma Era da Razão? Pouco, e ganhamos de brinde bastardos desses movimentos, como o obscurantismo religioso e o materialismo histórico. Com isso, avançamos a primeira década do novo século montados sobre os cadáveres que o "se não está comigo, é contra mim" nos legou.

Ou somos partidários da "guerra ao terror", ou defendemos o multiculturalismo e a soberania dos povos. Só que a primeira posição pode significar tanto a defesa de algum dos melhores valores que o homem concebeu quanto aplaudir Abu Ghraib. E apoiar a segunda leva tanto à crença na diversidade do processo histórico quanto à elegia do Taleban.

O cinza não é bem-vindo ao debate, e o que se vê é a redução do mundo aos prós e contras. A Europa federal é para uns um polvo kafkiano emanando tentáculos burocráticos de Bruxelas para cada instância da vida civil; para outros, um manancial de civilização com euros suficientes para pagar os eventuais estragos. Putin é o salvador da Rússia ou uma espécie de anticristo. A China, um monstro ou um modelo. Os EUA, o império decadente ou o farol do mundo.

E o Brasil? Como grandes questões passam só de raspão por aqui, nos contentamos com uma versão comezinha do maniqueísmo: ou somos lulistas, ou não o somos. Ser leva a acreditar que "nunca antes na história deste país" estivemos tão bem. Não ser significa negação sistemática de eventuais méritos. Lula ou é visto como um parvo, ou como "nosso guia". Tentar achar o meio-termo, que costuma ser a medida ideal, é um esforço quase inútil. O consolo residual é que miséria gosta de companhia: não estamos sós."

É isso aí.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Religião também se discute: Jesus para além do cristianismo


Final de ano, festa natalina, supostamente religiosa (nascimento de Jesus), com poucos lembrando do aniversariante (que tudo indica, também não aniversaria nesta data), mas todos aguardando o Papai Noel, os presentes e o lado profano da comemoração. Tudo isso me inspirou a refletir sobre o diálogo interreligioso para além do próprio cristianismo ocidental.

É comum se dizer que futebol, religião e política não se discute. Embora eu admita que cada um tenha suas preferências e tendências (e eu não sou diferente nisso), creio que se discute sim. Já falei das três coisas aqui, embora pela natureza do blog os debates versam mais sobre política, uma ou outra discussão futebolística, mas raras discussões religiosas. Talvez isso ocorra por que como religião é algo que diz respeito a fundamentos do próprio ser espiritual de cada um, o que ocasiona por vezes extremismos e fundamentalismos de toda ordem quando a religião deixa de ser vista como um caminho para Deus e para a realização do espírito e passa a ser encarada como a própria lei divina a ser implementada à força. Por isso debater religião é sempre mais delicado, todavia nem por isso menos necessário.

Creio que o pressuposto de todo debate religioso fecundo deva ser a humildade e a tolerância recíprocas. Se eu considero uma determinada religião superior às demais nos seus fundamentos, é normal que eu a professe. Entretanto, é necessário que eu também admita a possibilidade de estar equivocado e que meu irmão de outra religião ou até sem religião possa estar certo. Dificilmente estamos certos ou errados em tudo e a disposição socrática ("só sei que nada sei") de admitir isso é o primeiro passo para avançarmos em fraternidade e compreensão mútuas.

A religião, qualquer que seja ela, pode conduzir a muitas coisas boas, quando, por exemplo, ao abraçar causas religiosas, as pessoas fazem da solidariedade e do amor ao próximo a razão de sua própria vida e agem de acordo com isso. Veja-se o belo trabalho de missionários religiosos que, ao levarem alento espiritual aos seus irmãos sofridos, levam também alimentos, remédios, esperança e calor humano.

Por outro lado, a religião, qualquer que seja ela, quando se torna uma prática extremista e intolerante do tipo "só a minha religião é a correta", "quem não é da minha religião irá para o inferno" ou ainda "você tem que se converter" (e tem gente que esgota a paciência de qualquer um com isso) pode produzir as piores coisas. É justamente esse tipo de religião militante extremada que produz, por exemplo, os terroristas islâmicos suicidas. Mas não somente o Islã possui tais fanáticos. O cristianismo medieval e contemporâneo produziu e produz muitos desses, embora raramente suicidas. A intolerância da inquisição católica e a caça aos "idólatras demoníacos" por parte do protestantismo são exemplos disso no cristianismo, assim como a ortodoxia de muitos judeus exclusivistas levando a extremos as teorias do "povo eleito". Até mesmo o ateísmo militante de um Christopher Hitchens, por exemplo, se torna uma espécie de religião às avessas, como se viu em países socialistas que, ao mesmo tempo em que repetiam Marx afirmando ser a religião o "ópio do povo", criavam novos ícones em lugar dos velhos com os cultos à personalidade dos líderes, sendo uma verdadeira religião sem Deus.

Daí eu ter feito referência à importância de se ter humildade e tolerância. Ser humilde para reconhecer que posso estar errado e ser tolerante para, ainda que eu esteja certo e convicto disso, o meu irmão tem todo o direito de estar errado e eu não posso condená-lo por isso.

A religião é ambígua como a própria humanidade. Ao lado de belas páginas de sabedoria e espiritualidade, vejo na Bíblia e no Alcorão muitas outras de violência e intolerância. Enquanto alguns utilizam esses escritos para demonstrar que seu humanismo e sua solidariedade emanam de Deus, outros fundamentam suas "guerras santas" nos mesmos escritos. Por isso que os mesmos não podem ser interpretados de forma literal, até por que os originais se perderam no tempo e só para ficar em um exemplo, as cópias mais antigas dos textos bíblicos datam do século IV depois de Cristo, o que significa que temos pelo menos 300 anos de distância temporal entre os acontecimentos e o que está nos textos, para não falar nas sempre possíveis manipulações ao longo do tempo e, ainda que os tradutores tenham tido extrema boa-fé, nas mudanças semânticas e pragmáticas que tais palavras sofrem no tempo e na tradução de um idioma para o outro.

Já fui católico, hoje não professo nenhuma religião específica, embora atualmente tenha grande admiração por muitos dos ensinamentos do budismo e do xintoísmo, sem, no entanto, me sentir à vontade de me rotular como fiel de uma delas (aliás, não me aprisiono muito a rótulos). Mas já que o Natal é, em tese, a comemoração do aniversário de Jesus, vale a pena considerar seu exemplo: embora nascido judeu, sua mensagem foi universalista e holística sem fazer acepção de pessoas; tratou com a mesma consideração judeus, romanos, samaritanos e demais nacionais, homens, mulheres, crianças, olhando o valor espiritual de cada um deles e não se estavam indo ao templo ou cumprindo os rituais dos cultos religiosos; se agiam conforme a própria fé ou se esta era só da "boca para fora" ("nem todo o que diz: "Senhor! Senhor!", entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de meu Pai, este entrará no Reino dos Céus" - Mt 7, 21).

Se o cristianismo histórico deturpou muito a mensagem de Jesus de Nazaré, penso que muito do exemplo e das palavras sábias desse grande Homem (sem adentrar o mérito se ele era ou não filho de Deus) deveriam ecoar como alento espiritual de encontro pessoal com Deus e o Infinito, mais do que promoverem ritualismos estéreis ou militâncias religiosas arrogantes.

"Esse povo me louva com os lábios, mas o seu coração está distante de mim" (Mt 15, 8).

domingo, 16 de dezembro de 2007

As "pérolas" da censura no Brasil

Aos que porventura tenham saudades da ditadura militar brasileira ou os que, por outro lado, não viveram aqueles anos, mas acreditam que a seriedade e a moralidade eram maiores, coloco neste espaço alguns dados interessantes colhidos pela pesquisadora Leonor Souza Pinto em torno da atuação da censura no Brasil entre 1964 e 1988. Após 10 anos de análises nos processos de censura guardados no Arquivo Nacional de Brasília, as suas pesquisas em uma amostra de 269 filmes estão expostas no site http://www.memoriacinebr.com.br/, onde os leitores que queiram mais detalhes poderão obtê-los.

Algumas curiosidades: o cineasta mais perseguido pelos censores não foi nenhum grande contestador político (ao menos de forma mais direta) e sim ninguém menos que José Mojica Marins, o "Zé do Caixão", tendo enfrentado interdições em sete dos seus filmes. Caso extremamente curioso é relatado por ele quando afirma que várias cenas anteriormente cortadas pela censura foram por ele recolhidas e expostas no filme "Delírios de um Anormal" e - pasmem - este último foi liberado sem cortes (para se ver como a censura era "lógica e coerente" em sua atuação). Vejamos outras curiosidades pelo gênero e os porquês de suas reprovações pelos censores.

1) DRAMAS ERÓTICOS

A ILHA DOS PRAZERES PROIBIDOS, de Carlos Reichenbach

Síntese: aventuras de uma jornalista em uma ilha, liberadas com cortes em uma cena de sexo.

Avaliação da censura em 08/01/1979: "(cortar) relação sexual entre Sérgio e Ana (...). Retirar tomada em que Sérgio deitado sobre Ana rola e a coloca por cima (...). Retirar tomada que apresenta Ana montada sobre Sérgio, permanecendo as tomadas que ele a despe".

OS HOMENS QUE EU TIVE, de Tereza Trautman

Síntese: filme de 1973 em que uma mulher (Darlene Glória) tem relacionamento com vários homens. Após 3 semanas em cartaz, foi proibido pelo General Antonio Bandeira, então Diretor Geral da Polícia Federal, sendo liberado somente seis anos depois.

Avaliação pelo Censor José Ferraz em 23/05/1975: "Filme amoral, pornográfico, debochado, cínico, obsceno, que tenta com enredo mal feito justificar a vida irregular da mulher prostituída. É um libelo contra a instituição do casamento, considerando como tal as investidas desregradas da insaciável mulher".

2) TERROR

ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER, de José Mojica Marins

Síntese: estória de um homem que seqüestra mulheres em buca da companheira perfeita. Proibido em 1966, liberado apenas em 1987, com cortes e classificação etária 14 anos.

Avaliação da Censora Jacira Oliveira em 18/11/1966: "Se não fugisse à minha alçada, seria o caso de sugerir a prisão do produtor pelo assassinato à sétima arte, pois não foi outra coisa que ele realizou ao rodar o presente "filme". (...) Nus, cenas de ataques sexuais, terror etc. são a constante que, a meu ver, não possibilitam a liberação da referida "película"".

O DESPERTAR DA BESTA, de José Mojica Marins

Síntese: psiquiatra que faz experiências regadas a drogas e sexo, foi rejeitado duas vezes pela censura, em 1970 (com o nome de "Ritual dos Sádicos") e em 1982.

Avaliação do censor Osmar Fialho em 09/10/1970: "A irrealidade do filme é manifesta e o seu apelo às manifestações sexuais anormais é evidente. A divulgação do vício e dos seus efeitos alucinatórios (...) resultam em mensagens de incitamento experimental. (...) O filme não apresenta atenuantes. (...) O mínimo que se pode sugerir para um espetáculo tão imoral e degradante é completa INTERDIÇÃO".

3) PORNÔS

O BEIJO DA MULHER PIRANHA, de Jean Garret

Síntese: aproveitando o sucesso de "O Beijo da Mulher Aranha", o diretor cria uma mulher que se excita com um peixe. Banido pela censura, conseguiu liberação por liminar judicial.

Avaliação do Censor Dalmo Paixão em 09/05/1986: "Trata-se de filme pornográfico em que seus realizadores se gabam de haver introduzido inovações no gênero: o emprego de peixes na excitação sexual e o uso de pênis artificial acionado por máquina de lavar roupa. (...) Opinamos pelo veto ao filme (...) por contrariar os bons costumes".

OSCARALHO - O OSCAR DO SEXO EXPLÍCITO, de José Miziara

Síntese: cenas de sexo são intercaladas com entrega de prêmios para atores pornô.

Avaliação da censura em 09/09/1986: "Variedade de seqüência de práticas libidinosas, as quais são mostradas em detalhes sob as mais diversas angulações, colocando em close os órgãos genitais masculinos e femininos".

Digo logo aos leitores que não assisti (nem pretendo) nenhum dos filmes acima. Acho até que devem ser de péssimo gosto e como há um monte de filmes bons que ainda não vi, prefiro não perder meu tempo.

Porém, não abro mão da minha liberdade em decidir fazê-lo ou não. Cada um deve decidir isso por si próprio e não sermos tutelados por quem quer que seja até no nosso bom ou mau gosto, com essas "pérolas" de falso moralismo (enquanto isso, opositores políticos eram perseguidos, torturados e mortos pelos mesmos guardiões da "moral e dos bons costumes").

Ainda bem que são tempos idos. CENSURA NUNCA MAIS.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Ainda falando em música, duvido que alguém que esteja estressado e/ou depressivo não consiga mudar de ânimo e viver um "moment of peace" ao ouvir Sarah Brightman em dueto com os Monges do Canto Gregoriano. Em http://www.youtube.com/watch?v=wHMLs8lIFA4 parece que mais uma vez se ouve a(s) voz(es) de Deus.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Gotan Project e Yann Tiersen: música de qualidade sempre se renova





Embora seja lugar comum dizer-se que gosto não se discute, possuo opinião diversa: acho que se discute sim, desde que possamos diferenciar qualidade musical em seus fundamentos de outras coisas como, por exemplo, as emoções ligadas a esta ou aquela canção que ouvimos, o que pode trazer sentimentos distintos aos que as ouvem. Eu mesmo me emociono quando escuto nesses revivals dos anos 80 a canção "Superfantástico" do Balão Mágico, grupo infantil dessa época; lembra minha infância, mas não poderia dizer que é uma obra-prima da música popular. O mesmo pode acontecer quando reconhecemos a grande qualidade musical de um artista que não seja de nosso tempo e ainda que isso não nos desperte grandes emoções.

Apesar de já ter passado dos 30, pelo menos em um aspecto acho que sou totalmente teen: não suporto aquelas conversas de gente da minha idade ou mais velha dizendo que as músicas da atualidade (assim como as coisas em geral) não prestam, que no "meu tempo" é que havia qualidade musical, hoje só se faz música comercial etc. Para mim, boa música é sempre boa, seja um hit do momento ou uma canção escrita há dez, vinte, quarenta ou duzentos anos atrás. Gosto de Bach e Mozart, assim como de Villa-Lobos, Cartola, Mutantes, Caetano Veloso, Beatles, Scorpions, U2, Guns'N'Roses, Legião Urbana, Marisa Monte, Chico Science, Keane, Los Hermanos e Vanessa da Mata. E é com esse espírito que busco ouvir e ver as novidades (algumas não tão "novidades" assim), embora hoje em dia eu não tenha mais o tempo que outrora tinha para ficar horas em uma loja de CDs ouvindo um monte deles (sendo um pouco saudosista: como eu gostava de fazer isso!).

Recentemente fiz duas grandes "descobertas" musicais que me agradaram bastante.

Uma foi a do grupo musical Gotan Project. Criadores do chamado "tango eletrônico", os membros do grupo fazem um som profundamente inovador, mesclando as raízes do tango com elementos do jazz contemporâneo e da batida eletrônica dos DJs. Os puristas do tango argentino muitas vezes os criticam, mas para mim o que eles fazem é uma verdadeira declaração de amor a esse belíssimo estilo musical de nuestros hermanos. O curioso é que apenas o guitarrista Eduardo Makaroff é argentino, os outros dois são o músico suíço Christoph Müller e o DJ francês Phillip Solal. Os 3 são amigos e se juntaram em Paris com a proposta de unir a música de Astor Piazzolla à textura eletrônica do acid jazz, combinados também com elementos de música gaucha argentina (principalmente no CD Lunático, um pouco menos no La Revancha del Tango). O nome "gotan" é tango com as sílabas invertidas, como na gíria portenha. O resultado é maravilhoso, quem quiser conferir, veja http://www.youtube.com/watch?v=wZk-LJ_KCMg e também http://www.youtube.com/watch?v=3zD9W9SZj9w.

Outra foi a do músico multi-instrumentista francês Yann Tiersen. Já conhecia algumas músicas suas, mais particularmente as das trilhas sonoras de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" e de "Adeus Lênin", mas não sabia que eram dele. Por curiosidade, fui atrás e descobri um músico fantástico, extremamente versátil e tocando piano, violino e acordeon com desenvoltura ímpar, além de compor para esses 3 instrumentos. De estilo minimalista e um tanto melancólico, lembra um pouco a música de Yanni, mesclada com elementos de rock e música européia em geral. Há momentos que parece uma reencarnação de Chopin compondo nos dias atuais. E apesar de ainda relativamente jovem (37 anos), o músico francês já possui 13 CDs lançados e várias músicas em trilhas sonoras de filmes (a de "Adeus Lênin" é lindíssima), além de parcerias musicais muito boas. Quem quiser conferir, veja http://www.youtube.com/watch?v=o8lPEgqE16o e também http://www.youtube.com/watch?v=8nrI2ttkM-U&feature=related.

Enfim, músicas de qualidade sempre existem em todo tempo e lugar e são as vozes dos anjos/deuses para os ouvidos, o espírito e a alma.

CPMF: um tributo justo

Em algumas oportunidades, já critiquei a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), principalmente por aumentar a carga tributária brasileira, que é demasiadamente alta para o Estado que nós efetivamente temos e os serviços prestados por ele aos cidadãos que dele necessitam. Em um país com o perfil do "Ingana" (expressão de Roberto Campos para afirmar que o Brasil possui tributação da Inglaterra com serviços públicos de Gana), qualquer aumento na tributação é mal visto. De fato, a relação carga tributária/PIB no Brasil chega próxima aos 40%, tendo aumentado mais de 10% nos anos FHC/Lula. Essa relação é um pouco inferior à existente nos Estados sociais europeus, mas a diferença quanto à prestação dos serviços públicos... creio ser desnecessário falar, isso todos nós sabemos e sentimos na pele.

Entretanto, revi minha posição inicial. Outrora quando reclamei da CPMF, parece que estava equivocado, pois se tratava de uma reclamação contra a excessiva carga tributária em geral e não em relação ao referido tributo em particular. De fato, para quem já paga tantos tributos, ainda ter que pagar CPMF é terrível. Mas analisando de forma mais ponderada, a CPMF não é um tributo ruim. Ao contrário, estou convencido atualmente de que ela é um tributo bem mais justo do que a maioria dos existentes no nosso sistema e possui inúmeras vantagens: é difícil de sonegar, atinge a circulação de renda formal e informal, tributa mais quem movimenta mais recursos, propicia boa e simplificada arrecadação para o Estado e permite à Receita Federal um maior acesso a possíveis movimentações ilegais de recursos, facilitando as investigações não somente em relação à sonegação fiscal, mas ao cometimento de crimes os mais diversos, notadamente contra o sistema financeiro, a economia popular, "lavagem de dinheiro" e congêneres.

Através do cruzamento de dados da declarações tributárias com a movimentação financeira, a Receita Federal apurou por exemplo que dos 100 maiores contribuintes da CPMF, 62 jamais haviam pago Imposto de Renda e que existia microempresa - que para ser micro, não poderia movimentar mais de R$ 120 mil/ano - movimentando R$ 100 milhões/ano. O simples cruzamento de tais informações quase triplicou a arrecadação.

Na verdade, adequado seria discutirmos uma ampla reforma do sistema tributário nacional no sentido de uma simplificação do sistema, diminuição da carga tributária em geral sem comprometimento da arrecadação necessária à melhoria da prestação dos serviços públicos. Infelizmente, esse debate não avança, pois cada um que defenda uma reforma apenas para contemplar seus próprios interesses e não em razão de uma racionalização do sistema. Nesse contexto, seria razoável manter a CPMF, talvez até tornando-a permanente, e reduzir alíquotas de outros tributos, por exemplo, desonerando a tributação em torno das folhas de pagamento das empresas (o que, em tese, poderia tornar menor o custo de um trabalhador para o empresário e incentivar a contratação formal), além do próprio Imposto de Renda que poderia ter mais alíquotas diferenciadas em relação à faixa de renda, observando a questão da progressividade.

Atualmente, penso que a CPMF é um tributo mais justo do que a maioria deles e que o grande problema da tributação no Brasil não é a CPMF e sim que pagamos muitos tributos (de cabeça: II, IE, IR, IPI, IOF, ITR, ICMS, IPVA, IPTU, ITCMD, ITBI, ISS, CSLL, PIS, COFINS, CIDEs etc.), considerando os serviços que o Estado nos presta. Interessante que não vejo o grande empresariado se mobilizar com a mesma veemência em relação ao IRPJ (Imposto de Renda de Pessoa Jurídica) ou as contribuições sobre as folhas de pagamento como o fazem contra a CPMF. Sem querer dizer que todos sejam sonegadores, mas que dá essa impressão diante da dificuldade de se sonegar CPMF em detrimento da relativa facilidade em relação a esses outros tributos, isso dá.

De minha parte, preferiria pagar CPMF e ver reduzida a alíquota do IR, assim como daqueles outros tributos que oneram as folhas de pagamento das empresas. Mas isso só com uma reforma tributária efetiva que, ao que parece, nenhum governo deseja fazer, pois desde FHC se fala nela e tanto o anterior Presidente como o atual parecem querer apenas "tocar o barco", sem criar de fato uma solução mais definitiva e racional para os problemas tributários brasileiros.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Em seu blog Acerto de Contas (http://www.acertodecontas.blog.br/), o meu amigo e colega Prof. da UFPE Pierre Lucena postou a seguinte indagação acerca do resultado do referendo na Venezuela:

"ditador?
Perguntar não ofende

Se Hugo Chavez era um ditador, por que submeteu e aceitou um resultado desfavorável em um plebiscito?
Será que a imprensa vai continuar insistindo nisso?"

Não resisti e lá fiz o seguinte comentário:

"Amigo Pierre, permita-me a discordância: submeter-se a um referendo não desnatura o autoritarismo presente nas ações do Governo Chávez. O mesmo buscava legitimar uma ampla mudança constitucional que tinha por escopo fortalecer desmedidamente o poder executivo em detrimento dos demais. Escrevi sobre isso em meu blog. A Venezuela estava caminhando para uma ditadura cesarista (conceito que tb. já discuti no blog e em artigo publicado em periódico científico - Revista da Faculdade de Direito de Caruaru, vol. 36, 2005, intitulado "Entre os Sonhos de Rosa Luxemburg e a Realidade de Erich Honecker - Para Não Esquecer as Lições da Antiga República Democrática Alemã"), talvez ainda esteja, mas o resultado do referendo demonstrou que o regime democrático ainda subsiste lá e que, embora a maior parte da sociedade apóie as políticas sociais de Chávez (o que explica a sua popularidadediante de tantas décadas de desmandos e concentração de renda perpetradas pelas elites da Venezuela - parece sina da América Latina), discorda entretanto da perpetuação de sua figura no poder.

No Brasil, recente pesquisa do Datafolha afirma o mesmo em relação ao Presidente Lula: a maioria da população aprova seu governo, mas não concorda com a alteração da Constituição para permitir-lhe um 3o. mandato. Lembrando Bobbio, são as regras do jogo, meu caro, e merecem ser preservadas.

Chávez é autoritário, a Venezuela não. Por enquanto, com todos os problemas, permanece uma democracia. Ao menos eleições livres e liberdade de manifestação do pensamento como componentes básicos de um Estado democrático de direito ainda compõem o arquétipo político venezuelano."

Em tempo: o Acerto de Contas é um dos melhores blogs sobre atualidades em política e economia, mantido pelos meus amigos Pierre Lucena e Marco Bahé. Vale a pena acessar e conferir.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Bobbio, futebol e regras do jogo no Brasil


Depois de uma semana sem postar e ainda buscando algumas horinhas de sono reparador após tantas trocas de fraldas, volto à tona para o deleite ou desespero dos meus leitores, comentando um pouco o final do Campeonato Brasileiro da Série A e suas possíveis analogias cognitivas com a realidade brasileira. Por isso, inicio com uma citação do grande jurista e filósofo político italiano Norberto Bobbio, extraída do final de seu livro O FUTURO DA DEMOCRACIA - UMA DEFESA DAS REGRAS DO JOGO, lançado na década de 80 passada:

"Se então, na conclusão da análise, pedem-me para abandonar o hábito do estudioso e assumir o do homem engajado na vida política do seu tempo, não tenho nenhuma hesitação em dizer que a minha preferência vai para o governo das leis, não para o governo dos homens. O governo das leis celebra hoje o próprio triunfo na democracia. E o que é a democracia se não um conjunto de regras (as chamadas regras do jogo) para a solução dos conflitos sem derramamento de sangue? E em que consiste o governo democrático se não, acima de tudo, no rigoroso respeito a estas regras? Pessoalmente, não tenho dúvidas sobre a resposta a estas questões. E exatamente porque não tenho dúvidas, posso concluir tranqüilamente que a democracia é o governo das leis por excelência. No momento mesmo em que um regime democrático perde de vista este seu princípio inspirador, degenera rapidamente em seu contrário, numa das tantas formas de governo autocrático de que estão repletas as narrações dos historiadores e as reflexões dos escritores políticos".

Hoje, pela primeira vez em sua história, o Corínthians foi rebaixado para a Série B. Não vou dizer que fiquei feliz com isso, já que não tenho absolutamente nada contra os corinthianos (como já disse aqui, sou torcedor do Náutico e nossa grande rivalidade é local com o Santa Cruz e o Sport), mas é bom que os clubes considerados "grandes" do Brasil possam passar pela experiência da 2a. divisão.

Assim como em outros setores, historicamente o futebol brasileiro sempre foi meio bagunçado no que diz respeito ao cumprimento efetivo das regras estabelecidas. Prevaleceu na maioria das vezes aquela máxima de "aos amigos, tudo, aos inimigos a lei". Quando um clube nordestino, por exemplo, era rebaixado, aplique-se o regulamento. Mas quando um dos "grandes" o era, havia viradas de mesa, arrumadinhos de toda ordem, "descobriam" um árbitro que houvera sido subornado para favorecer o time A ou B, enfim, os clubes em questão eram intocáveis, mesmo quando deficientes tecnicamente. Lembro até que dirigentes do futebol brasileiro chegaram a pregar que clubes como Flamengo, Corínthians e São Paulo não deveriam ser rebaixados em nenhuma hipótese, uma espécie de "vitaliciamento" na 1a. divisão para essas agremiações, membros perpétuos da Série A.

A partir da década passada, isso começou a mudar: Fluminense, Palmeiras, Botafogo e Grêmio foram efetivamente rebaixados para a segundona e tiveram que disputar e vencer nos respectivos campeonatos para voltarem à elite do futebol brasileiro. Durante esse brasileirão, com a má campanha dos alvinegros paulistas, muitas vezes se ouvia comentários do tipo "não podemos deixar o clube que possui a 2a. maior torcida do Brasil cair, seria um desastre". Ora, desastre para quem? O Corínthians fez péssima campanha, esteve envolvido com graves problemas extra-campo (a ponto de ser discutida no Congresso uma CPI do Corínthians) e o rebaixamento parece ter sido simplesmente conseqüência de tudo isso. A regra é a mesma para todos: não conseguiu os pontos e a colocação suficiente para estar na 1a. divisão, tem mais é que ser rebaixado mesmo. Isso é óbvio, mas o óbvio no Brasil tem que ser dito e feito de forma muito clara, senão "aos amigos tudo".

Percebam o que digo: hoje em Porto Alegre no jogo contra o Grêmio, o time do Corínthians atrasou em 20 minutos sua entrada em campo. Não posso julgar, mas isso me parece uma manobra antiética para saber antecipadamente os resultados das partidas do Goiás e do Paraná que aconteciam na mesma hora. Que bom que o tiro foi pela culatra: 2 minutos de jogo, 1x0 Grêmio. Mesmo o posterior gol de empate não serviu, pois o Goiás venceu o Internacional por 2x1 e ficou com a última vaga na Série A.

Espero que as regras do jogo sejam realmente cumpridas e que não inventem manobras para virarem a mesa e fazerem fora de campo aquilo que o Corínthians não fez dentro.

Nos últimos anos, o futebol brasileiro tem feito progressos visíveis em relação ao cumprimento das regras e deve continuar assim. É verdade que ele ainda é bastante assimétrico e desigual na repartição dos recursos em relação a quem pertence ou não ao denominado Clube dos 13: aqui em Pernambuco, por exemplo, ouvi há alguns dias na resenha esportiva que o Sport, membro do referido "Clube", recebeu R$ 25 milhões para disputar a Série A deste ano; o Náutico, mesmo estando na mesma divisão, pelo simples fato de não integrar aquela instituição exclusivista, recebeu somente R$ 3 milhões, ou seja, quase dez vezes menos. Não vejo justificativa para tal e não acharia justo, mesmo que fosse invertida a situação. Todavia, não posso negar que o fato dos "grandes" terem que passar por dificuldades semelhantes a dos "pequenos" ajuda a moralizar o nosso futebol.

Que bom seria se fizéssemos avanços mais significativos também em relação à vida política e social do país. O governo das leis em vez do governo dos homens, república como verdadeira res publica, e regras do jogo estáveis e efetivamente cumpridas. Se evoluímos no futebol, por que não no restante? A esperança continua.

domingo, 25 de novembro de 2007

O guerreiro nasce


"Neve derretida. Em festa,
O novo respirar da floresta.
No espelho das águas se fez
A imagem do sol outra vez..."
(Lucas E. Schultz: O Caminho do Guerreiro)


"Qual de honesta mulher, para que aos filhos, traga o duro salário, as conchas libram

O peso e as lãs, iguala-se a peleja, até que Jove a Heitor conceda a glória

De entrar primeiro o muro. A voz tonante ei-lo esforça: "Investi, briosos Teucros,

Muro em terra, e na frota a voraz chama."

Na orelha a todos retiniu seu brado: remetem logo, ao parapeito sobem,

Lança nas mãos. Heitor pontuda e grossa pedra arrancou da verga de uma porta,

Que ora nem dois forçudos camponeses poderiam mover, nem carreá-la:

Por Jove aligeirada, ele a maneja, como simples tosão que em sua esquerda

Mal o ovelheiro sente; vai direito ao biforme portão de bastas pranchas,

Que muniam por dentro encruzilhadas barra duas e enorme fechadura;

Por não falhar o tiro, o herói de perto, alarga as pernas e nos pés se estriba;

Rechina o grave seixo; os gonzos parte; batentes e portais horrendo estralam;

Cedem barras, pranchões uns contra os outros se despedaçam. Pula Heitor, medonho

Como escuro bulcão; brande hastas duas, fulgura em bronze, os lumes lhe chamejam;

No ímpeto um deus somente o suspendera.

A transpor a trincheira instiga os Troas:

Quais a ameia superam, quais transcendem as broncas portas.

Em tropel os Gregos às naus se acolhem, em um ruído imenso".

(Homero: Ilíada)


Evocas a tradição, ó rebento,
Tradição dos grandes guerreiros,
Dos navegadores, dos desbravadores,
Dos espíritos grandiosos que admiramos,
Ao desvelarmos suas grandes façanhas,
E deixarmos que nos engrandeçam
E compartilhem conosco um pouco de sua glória.

Evocas a tradição, ó rebento,
Tradição dos virtuosos talentos,
Das artes da paz e da guerra que os exalta,
Da ruidosidade suave e forte,
Da sonoridade poderosa e bela,
Da brasilidade como afirmação,
Da universalidade como dimensão,
E da existência como desventura gloriosa.

Mas nem somente a tradição evocas, ó rebento,
Pois simbolizas o novo e o belo,
Trazendo ao mundo a energia dos visionários,
A serenidade dos sábios,
A honradez dos decentes,
A simplicidade dos iluminados,
E os augúrios de novos momentos
Humanos, demasiado humanos,
Divinos, demasiado divinos,
Felizes, demasiado felizes.

E quando, ó rebento, essa nova era de paz e compaixão,
Vier porventura a deixar de ser apenas quimera,
Para tornar bela e grandiosa nossa curta existência,
Possamos desde já perceber,
Os augúrios desse “novo tempo, apesar dos castigos”,
A enaltecer a digna estima pela solidariedade,
E a aquecer os gélidos espíritos das almas humanas,
Intocadas por essa fagulha incendiária chamada amor.

(Do autor deste blog: ODE AO PEQUENO GUERREIRO)

Achei ótima a frase escrita ontem por Clóvis Rossi em sua coluna diária na Folha de SP: "Minha sugestão para "spot" publicitário do PSDB, no bojo da campanha em curso: "O PSDB inventou o mensalão, o PT copiou. Isso não é bom para o Brasil"". Pobre "pátria mãe tão distraída".

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Às vezes penso que nesse mundo louco em que vivemos, ter algum juízo parece ser o maior sinal de insanidade.

sábado, 17 de novembro de 2007

Ainda o "Tropa de Elite": a culpa é do termômetro?


Transcrevo aqui a análise sobre o tão polêmico filme feita pelo meu amigo Alexandre Costa, Professor de Filosofia da ASCES. Achei-a brilhante e diz muito mais do que eu disse em posts anteriores acerca do trabalho do Padilha. Ei-la:

"Dentre as muitas qualidades do filme de José Padilha, está a do aspecto socrático de gerar polêmicas, isto é, de questionar o Brasil de modo cru e direto, sem a pasteurização da maioria dos filmes comerciais brasileiros. Ademais, o filme pretende ser e realmente é uma experiência que vem a ser a sua própria razão de ser, concedendo ao espectador uma experiência emocionante, algo raro no cinema-vitrine dominante. E, apesar da pirataria, o filme continua levando muita gente ao cinema para ser apresentada ao país real. Isso prova que a apologia da ignorância e do conformismo, marca inconfundível da Globo Filmes, não é a única maneira de se fazer cinema. Eis um outro mérito do filme!

Numa entrevista à revista Carta Capital, Padilha diz que apenas colocou o termômetro no paciente com febre e constatou uma temperatura muito alta. Concordo com ele e penso que o filme se esforçou para não ter um ponto de vista, deixando ao espectador o juízo ético sobre o que acontece na tela. Ademais, fez aflorar as altas doses de violência até então latentes nas platéias brasileiras. Ter escolhido o capitão Nascimento (Wagner Moura) para narrar a obra não implica a concordância com as afirmações do personagem (alguém diria que Dostoievsky fez o elogio do assassinato ao expor o fluxo de consciência do estudante homicida em “Crime e Castigo”?) No filme, era necessário um narrador para expor a ação e a escolha recaiu sobre o capitão.

Ora, no país dos renans e dos malufs, dos juízes rocha matos e dos carreira alvins, a população sente-se impotente diante da impunidade da elite. O poder usa recursos infindáveis para garantir a prescrição de crimes, e a imunidade parlamentar, ao invés de ser uma garantia da autonomia parlamentar, serve apenas para acobertar delitos. Só resta à choldra buscar bodes expiatórios entre os pobres. Renan impune: mate-se um “fogueteiro!” Roriz solto: fuzile-se um “vapor”! Aqueles traficantes das favelas são a arraia miúda, os gerentes da baixa baderna brasileira, mas que servem para pagar o pato no lugar dos gerentes da alta baderna.

O descrédito na democracia é diretamente responsável pelo fato de o torturador do BOPE tornar-se herói nacional. O pobre cidadão, explorado e enganado, bem que gostaria de ver o capitão Nascimento em Brasília apagando corruptos, mas estes são intocáveis!Quem assistiu ao filme apenas em dvd certamente perdeu muita coisa: a música é boa e a montagem é nervosa, quase documental, destacando-se bastante na tela do cinema. Será Tropa de Elite um documentário? Ao desenhar um retrato fiel do país, o filme estaria muito próximo do cinema/verdade, mas, ao recorrer à ficção, o filme mostra que simplesmente descrever a realidade brasileira exige esforços que superam a mais sombria imaginação.

A classe média lotou os cinemas e continuará lotando-os para se ver no espelho, uma feia elite que rejeita as regras de civilidade, que ignora as regras do trânsito, que adora as novelas e acredita na Veja e no Jornal Nacional. Sempre aberta à possibilidade da ditadura, desde que se garantam os seus pífios privilégios, é ela que nutre a violência, seja pelo consumo de drogas, seja pela indiferença que exibe diante da miséria. No Recife, por exemplo, casais em churrascarias almoçam placidamente enquanto as babás de seus filhos observam em pé, ao lado da mesa e com fome. Isto não é violência?Uma recente pesquisa da FGV mostrou que o consumidor de drogas no Brasil pertence à elite branca universitária, coisa que o filme de Padilha mostrou. O filme ataca também a hipocrisia de quem faz passeatas pela paz enquanto adquire cocaína no morro. O blog de Josias de Souza comentou a ausência desse “grande nariz” na equação das drogas.

Padilha é muito hábil ao levar as pessoas a enxergarem o lugar-comum da violência com outro olhar. Cada um viu o que quis, e mesmo não trabalhando no engarrafamento da Brahma, cada um rotulou o filme como quis. Uma coisa é verdade: nenhum espectador ficou indiferente e ninguém foi jantar no restaurante da moda com a tranqüilidade de quem acabou de assistir ao filme “O Primo Basílio ou o assassinato de Eça de Queiroz”. Pra isso serve a arte!"

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Lula, "¿por qué no te callas?"


Às vezes, é um tanto difícil defender o Presidente Lula quando, ao falar demais, comete gafes. Pior do que estas é quando nosso mandatário perde a oportunidade de ficar calado e mete o bedelho em defender o inaceitável e fazer comparações esdrúxulas e despropositadas.

Antes que alguns me chamem de "lacaio imperialista" e "reacionário inveterado", declaro que votei em Lula 3 vezes, inclusive na última eleição quando acreditei (e ainda acredito) que ele era uma melhor opção do que Alckmin. Entretanto, isso não me torna alguém que tenha que aprovar antecipadamente todos os atos e discursos de seu governo. Como alguém que sempre esteve vinculado politicamente às causas que tradicionalmente a esquerda defende, posso afirmar com convicção que um dos graves problemas desta é a falta de autocrítica. É bem mais fácil desqualificar o crítico como "de direita", "reacionário" ou "conservador" do que analisar com bom senso o que ele diz e se é pertinente ou não. Para muitos, criticar Lula, Chávez ou Fidel Castro é ser automaticamente imperialista, bushista ou fascista.

"Ismos" à parte, como democrata e humanista que sou, aceitarei de bom grado tais críticas. Ainda acredito na esquerda que prima pela democracia e pelos direitos humanos e que aceita a crítica com parte da evolução do pensamento político. E é nessa linha política que transito atualmente.

O Presidente Lula perdeu nesta semana uma ótima oportunidade de ficar calado. A frase dita pelo Rei espanhol Juan Carlos a Hugo Chávez parece ainda mais apropriada se dirigida a Lula quando este tentou defender o último. Vejam o que nosso mandatário afirmou em defesa do presidente venezuelano:

1) "Podem criticar o Chávez por qualquer outra coisa, inventem uma coisa para criticar. Agora por falta de democracia na Venezuela não é. Estou há cinco anos no poder e vou chegar a oito anos, eu participei de duas eleições (...) E na Venezuela já teve 3 referendos, já teve 3 eleições não sei para quê, 4 plebiscitos, ou seja, o que não falta é discussão".

2) "Os que se queixam de que Chávez quer um terceiro mandato não fizeram o mesmo quando Margareth Thatcher ficou tanto tempo no poder na Inglaterra".

3) "Distinto por quê? É continuidade. Não tem nada de distinto. Muda apenas o sistema, o regime: de regime parlamentarista para regime presidencialista, mas o que importa não é o regime, é o exercício do poder. Ninguém se queixa do Felipe González que ficou tantos anos, e ninguém se queixa do Miterrand que ficou tantos anos, ninguém se queixa do Helmut Kohl que ficou quase 16 anos" (quando indagado sobre a diferença entre a monarquia parlamentarista britânica e a república presidencialista venezuelana).

Analisemos as afirmações presidenciais.

A primeira equivale democracia a eleições e consultas populares. Trata-se de uma visão reducionista de democracia. Eleições, plebiscitos e referendos fazem parte, mas por si sós não são suficientes para se ter democracia. Nesta as minorias são respeitadas, devem ter vez e voz e sempre há a possibilidade de que elas se tornem maioria. As técnicas plebiscitárias são utilizadas por democracias, mas historicamente também por autocracias que viam e vêem nelas uma forma de legitimação de seu poder pela própria população, tornando aparentemente democrática uma ditadura da maioria ou de um autocrata mesmo. Manipula-se o poder estatal no sentido de garantir uma perpetuação daquele governante no poder. É o conceito de Franz Neumann ("Estado Democrático e Estado Autoritário") de ditadura cesarista, já discutido neste blog anteriormente (post do dia 11/04/2007, intitulado "Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie: parte VII").

A segunda e a terceira dizem respeito a um mesmo equívoco brutal: fazer uma equivalência desarrazoada entre os sistemas parlamentarista e presidencialista, e, o que é pior, ignorar que mudar "apenas" o sistema nesse caso é fundamental.

No parlamentarismo, o voto de censura ou de desconfiança é uma técnica de que dispõe o parlamento eleito pelo povo para destituir o governante a qualquer momento. São parlamentaristas todos os casos citados por Lula. No parlamentarismo, o primeiro ministro necessita de plena confiança do parlamento para governar e possui responsabilidade política. Se ele for uma pessoa honesta, mas estiver governando mal, pode ser imediatamente destituído. Por outro lado, se for um bom governante e o seu partido/coligação vencer as eleições periódicas, ele pode continuar desfrutando da confiança dos parlamentares e permanecer por longo tempo no poder.

No presidencialismo isso não acontece. Tal sistema de governo tem por pressuposto a irresponsabilidade política do presidente da república, o que significa que uma vez eleito, ele cumprirá o seu mandato até o fim, independentemente de governar bem ou mal ou de ter a confiança do parlamento. Pode ser destituído apenas por um complicado processo político-criminal conhecido como impeachment, raríssimas vezes utilizado na história (o primeiro caso foi justamente no Brasil, a condenação do ex-Presidente Collor de Mello). Portanto, esse tipo de continuísmo é profundamente diferente do que ocorreu e ocorre naqueles países parlamentaristas.

Logicamente Hugo Chávez já está faturando politicamente em cima do que o Rei Juan Carlos disse. Evoca o colonialismo espanhol de outrora, diz que o Rei, diferentemente dele, nunca recebeu um voto da população, logo é um autocrata. Só falta agora chamar Zapatero de neoimperialista e ultraconservador.

É preciso que se diga: acostumado a dizer o que quer, Chávez certamente não contava com a irritação do Rei (quem diz o que quer, também ouve o que não quer). O governante venezuelano foi extremamente deselegante ao chamar reiteradamente de fascista um ex-primeiro-ministro espanhol, José Maria Aznar. Mesmo com o pedido do atual Premiê Zapatero, do Partido Socialista espanhol e adversário político de Aznar, de que respeitasse o ambiente diplomático da conferência iberoamericana, Chávez continuou a chamar Aznar de fascista e golpista, o que fez o Rei perder as estribeiras e falar o "¿por qué no te callas?".

Zapatero é um dos mais progressistas governantes europeus, tendo retirado as tropas espanholas do Iraque e defendido posições que, por exemplo, contrariam o conservadorismo católico na Espanha, como a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Por sua vez, o Rei Juan Carlos é um dos líderes mais respeitados da Europa e foi através de sua liderança que a Espanha superou o franquismo e restaurou a democracia na década de 70 passada. Pessoas, portanto, de profunda autoridade moral para coibir os arroubos autoritários de Hugo Chávez.

Compreendo que Lula queira fazer média e é sensato o seu governo ter uma boa relação com a Venezuela, com ou sem Chávez. Mas defendê-lo tão veementemente me parece uma insensatez, principalmente diante de uma política internacional capitaneada pelo Ministro Celso Amorim que tem priorizado o não alinhamento e a diversidade de atuação independentemente de ideologias.

O Presidente perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado. Ô Lula, "¿por qué no te callas?"

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Pernambuquês e a megalomania da terrinha

Uma grande frase de nossa megalomania:

"Recife é o lugar onde há o encontro do Rio Beberibe com o Rio Capibaribe para formar o Oceano Atlântico."

O dialeto pernambuquês traduzido (expressões básicas de sobrevivência):

- Botão de som é pitôco;

- Se é muito miúdo é pixotinho;

- Se for resto é cotôco;

- Tudo que é bom é massa ;

- Tudo que é ruim é peba;

- Rir dos outros é mangar;

- Ficar cheio de não me toque e frescura é pantim;

- Faltar aula é gazear;

- Colar na prova é filar;

- Quem é franzino (pequeno e magro) é xôxo ou xoxinho;

- O bobo se chama leso, abestado e abestalhado;

- E o medroso se chama frouxo;

- Tá com raiva é invocado;

- Vai sair, diz vou chegar;

- 'Caba' (homem), sem dinheiro é liso;

- A moça nova é boyzinha;

- Pernilongo é muriçoca;

- Quem entra sem licença emburaca;

- Sinal de espanto é 'vôte';

- Tá bêbado, tá bicado;

- Quando tá folgado, tá folote ou afolozado;

- Quem tem sorte é cagado;

- Pedaço de pedra é xêxo;

- Quem não paga é xexêro;

- O mesquinho ou sovina é amarrado, muquirana, mão de vaca, pirangueiro;

- Quem dá furo (não cumpre o prometido ou compromisso) é fulero;

- Gente insistente é pegajosa;

- Catinga de suor é inhaca;

- Briga pequena é arenga;

- Performance ou atitude de palhaço é munganga;

- Corrente com pingente é trancilim;

- Pão bengala é tabica;

- Desarrumado é malamanhado;

- Pessoa triste é borocoxô;

- 'É mesmo' é 'Iapôis';

- Borracha de dinheiro é liga;

- Correr atrás de alguém é dar uma carrera;

- Fofoca é fuxico;

- Estouro aqui se chama pipôco;

- Confusão é rolo.

É assim que acontece, visse?

SER PERNAMBUCANO É...

- Considerar Reginaldo Rossi Rei;

- Acreditar que a Recife é mesmo a 'Veneza Brasileira';

- Defender o frevo, mas não saber fazer um passo sequer (apenas 'dançar com os dedos pra cima');

- Amar as pontes do Recife sem conhecer o nome de qualquer uma delas;

- Preferir botecos a fast-food;

- Gostar de qualquer música que fale de sertão, mangue, etc.;

- Gostar de comer caranguejo, guaiamum e lambuzar as mãos...

- Saber o significado das palavras 'pirangueiro','pantim' e 'mangar';

- Achar que José Pimentel é a cara do Cristo;

- Ter orgulho de dizer que o sonho de todo cearense é ser pernambucano;

- Adorar bolo-de-rolo e suco de pitanga;

- Ir ao Alto da Sé em Olinda apenas para ver Recife ao longe e comer tapioca;

- Saber a delícia que é um bolo de bacia e pão doce com caldo-de-cana;

- Correr no Parque da Jaqueira e depois se empanturrar de caldo-de-cana na saída;

- Jantar olhando para a lua incrivelmente linda na praia de Boa Viagem;

- Achar que Recife seria melhor se os holandeses tivessem permanecido;

- Admirar Mauricio de Nassau mesmo sabendo pouco sobre ele;

- Conhecer a estória de Biu do Olho Verde e da Perna Cabeluda;

- Freqüentar a praia em frente ao Acaiaca;

- Tomar água de coco na praia;

- Ficar sempre dividido entre a beleza de Porto de Galinhas e Itamaracá;

- Saber distinguir entre o Maracatu do Baque Solto do Maracatudo Baque Virado;

- Conhecer as músicas de Alceu Valença e Geraldo Azevedo;

- Saber quem é Lenine, Reginaldo Rossi e que eles cantam o Recife;

- Sabe quem é Jota Michilles, o compositor de frevos de maior sucesso nas décadas de 80 e 90.

Pode-se até tirar alguém de Pernambuco, mas jamais se tira Pernambuco de alguém.

Apesar de todos os problemas, salve, salve Pernambuco, terra ARRETADA.

"Salve ó terra dos altos coqueiros, de belezas, soberbo estendal, nova Roma de bravos guerreiros, Pernambuco imortal, imortal!"

domingo, 11 de novembro de 2007

Re-reeleição e a defesa das regras do jogo


Uma semana sem postar nada. O corre-corre está grande, meus sofridos pupilos esperando por suas notas da 1a. avaliação, enfim, deixemos de conversa fiada e vamos à luta.

Felizmente parece ter arrefecido a discussão que estava ocorrendo sobre a possibilidade de se retirar da Constituição brasileira as limitações para a possibilidade de reeleições presidenciais sucessivas. O projeto ainda em debate contempla tal proposta, defendida pelo Deputado Federal petista Devanir Ribeiro, embora publicamente rechaçada pelo próprio Presidente da República. O que temo é que os políticos em geral mudam com muita facilidade de convicções e considerando fatos históricos relativamente recentes, pode-se afirmar que a possibilidade de novamente se alterar o dispositivo constitucional da reeleição não é devaneio metafísico, mas algo perfeitamente plausível. Permitam-me explicar melhor.

Em primeiro lugar, quero deixar claro que não tenho nada contra o Presidente Lula, embora critique algumas das opções políticas de seu governo. Votei 3 vezes nele, embora na última, confesso, sem grande empolgação. Contudo, para mim, o debate é institucional e não pessoal e independe de quem esteja no governo ou na oposição. É difícil se pensar assim no Brasil, parece que as discussões políticas acerca das regras eleitorais sempre são permeadas por interesses imediatos de manutenção do poder em detrimento de se garantir instituições razoavelmente estáveis que possam inclusive propiciar o saudável rodízio de governantes e administradores com propostas e soluções diversas para os problemas do Brasil.

Vejamos a história brasileira recente e o porquê do meu temor.

Durante os debates constituintes de 1987-1988, muitos outros temas foram discutidos, incluindo uma não prevista prorrogação do mandato do então Presidente José Sarney que seria inicialmente de 4 anos. Saíamos há pouco da ditadura militar e o hoje Senador da República conseguiu o acréscimo de 1 ano ao seu mandato concedido pelos constituintes, notadamente os do PMDB, majoritariamente favoráveis ao colega de partido. Isso inclusive gerou uma cisão daquela agremiação e (pasmem) a criação do PSDB (ele mesmo) atacando as mazelas daquele governo e o absurdo de se modificarem as regras do jogo com ele em andamento. Dentre os ferozes críticos disso, estava o então Senador Fernando Henrique Cardoso.

Em 1995, o então Deputado Federal pernambucano Mendonça Filho, da base de sustentação do governo recém-eleito do Presidente Fernando Henrique Cardoso, propôs uma Emenda à Constituição prevendo a possibilidade de reeleição para o poder executivo já para o pleito seguinte (1998). O curioso é que um ano antes já se discutia o tema, mas como as pesquisas apontavam que Luís Inácio Lula da Silva seria o provável vencedor, os deputados federais e senadores reduziram o tempo de mandato presidencial de 5 para 4 anos e vedaram casuisticamente o instituto da reeleição. Boa parte dos mesmos parlamentares mudaram "repentinamente" de "convicção" e aprovaram com entusiasmo a Emenda no. 16 em 1997, permitindo que o Presidente FHC concorresse e fosse eleito para mais um mandato (alteração mais uma vez das regras do jogo no meio dele). Vale lembrar que se hoje falam do mensalão no Governo Lula, houve na época a tentativa de se instalar CPI para apurar uma denúncia de que deputados teriam recebido R$ 200 mil cada para votarem a favor da Emenda. A base governista no Congresso Nacional, valendo-se de sua maioria, abafou o caso, apesar dos protestos veementes do (pasmem de novo) PT que via no instituto aprovado um absurdo antidemocrático e personalista, uma tentativa de perpetuação de poder por parte do grupo político tucano-pefelista.

Agora, depois da reeleição de Lula, setores do mesmo PT começam a defender tal possibilidade diante do risco seriíssimo de não ter candidato competitivo para 2010. Mais uma vez se defende a alteração das regras do jogo no meio dele pensando nos interesses imediatos do partido que está no poder ao invés de se assegurar a existência de regras estáveis que possam a longo prazo beneficiar todos os grupos políticos. Claro que todo partido político deseja mesmo o poder (seria muita ingenuidade acreditar que não) e faz de tudo para conquistá-lo e preservá-lo, mas esse "tudo" precisa se dar dentro de regras claras e estáveis do jogo político e eleitoral.

Sinceramente, Lula tem hoje uma grande oportunidade histórica de, pelo menos nisso, se diferenciar de seus antecessores FHC e Sarney e rechaçar de fato essa alteração constitucional. Seria, na minha opinião, um grande bem que ele faria à democracia brasileira. Poderia espantar de vez o casuísmo eleitoreiro lamentavelmente tão presente nas votações do nosso parlamento.

É preciso que seja dito que em si mesma a regra da reeleição não é antidemocrática, embora eu particularmente a veja com reservas. Sou parlamentarista por convicção e creio que o presidencialismo, com ou sem reeleição, é um sistema que permite uma onipotência desnecessária do poder executivo. Nos EUA deu certo, mas na maioria dos países em que foi implantado, é um redundante fracasso, inclusive entre nós.

Todavia, dentre os norte-americanos, antes mesmo de se estabelecer como regra escrita em sua Constituição, havia uma convicção na sociedade e na classe política que o Presidente poderia concorrer sucessivamente a um segundo mandato de mesma duração (no caso, 4 anos). Tal regra consuetudinária só foi rompida em 1940 pelo Presidente Franklin Delano Roosevelt, concorrendo a um terceiro mandato, em virtude da situação de guerra que envolvia os EUA, além, é claro, da enorme popularidade do famoso estadista norte-americano. Entretanto, logo depois de sua morte, o Congresso estadunidense aprovou a denominada Emenda Truman que incluiu formalmente na Carta ianque o instituto da reeleição com o limite de uma única, ou seja, nos EUA desde a década de 40 do século XX o Presidente somente pode concorrer a uma única reeleição. Tal limitação atinge inclusive a possibilidade dele ser eleito em pleitos posteriores, o que significa (olha a boa notícia para os que não sabiam) que George Bush, por exemplo, nunca mais poderá ser Presidente dos EUA, nem mesmo em 2012.

A Carta brasileira não possui essa restrição, proibindo apenas aquele governante que já esteja no segundo mandato de concorrer a mais um consecutivo, o que significa que nas atuais regras, o Presidente Lula não pode concorrer em 2010, mas seria legal e legítimo ser candidato em 2014.

Não sou um entusiasta do instituto da reeleição, mas já que o incluímos na nossa Carta, penso que talvez seja a hora de permitir que tal regra nos moldes atuais permaneça sendo testada. Os resultados até o momento, se não são plenamente satisfatórios, também não chegam a ser catastróficos como muitos dos críticos afirmavam à época da Emenda. O que não dá é para mudar a regra o tempo todo ao sabor dos interesses momentâneos dos mandatários.

Escrevi demais mais uma vez, me perdoem.

sábado, 3 de novembro de 2007

Falcão e suas reflexões bregosóficas



Está fazendo falta a reflexão bregosófica de um dos maiores ícones desse tipo artístico-literário no Brasil, o "cantor e compositor" cearense Falcão. O cara anda meio sumido da mídia e sua mistura de reflexão filosófica com a percepção brega da realidade brasileira em seus detalhes é sempre muito bem vinda.

Enquanto aguardo "a volta do que não foi", desse grande baluarte da bregosofia semi-inútil, relembro aqui algumas pérolas do pensamento falconiano para reflexão no final de semana:

"É melhor cair em contradição do que do oitavo andar".

"Quem dá aos pobres tem que pagar o motel".

"Eu sei que a burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume. E além do mais o high society leva chifre e não tem ciúme".

"O Brasil está em nossas mãos e não adianta lavar".

"Não sei se foi Voltaire ou foi um bodegueiro que disse que o mundo não se acaba quando se ganha um par de chifre".

"Supunhetemos que, de repentelho, o mundo inteiro se descabaçasse. Ora, não se ria, minha senhora, pois sua filha pode estar aqui dentro".

"Há males que vêm para o mal".

"Onde houver fé, que eu leve a dúvida".

"O homem nasce sem maldade em parte nenhuma do corpo. O homem é lobo do homem. Isso explica a viadagem congênita e a baitolagem adquirida".

"As bonitas que me perdoem, mas a feiúra é de lascar".

"Se a sua mulher tem um milhão de amigos, parece ser castigo, mas fica um consolo: porque mulher feia e jumento perdido só quem procura é o dono".

É, Falcão, sua análise bregosófica da atual surrealidade brasileira está fazendo falta.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

A "democracia bolivariana" chavista


Para aqueles que ainda acreditam que Hugo Chávez seja um democrata, leiam essa notícia.

A Assembléia Nacional da Venezuela sancionou nesta sexta-feira reforma que modifica 69 artigos da Constituição bolivariana de 1999, para fortalecer o poder do presidente Hugo Chávez e implantar o socialismo no país.

Foram 161 votos a favor e seis abstenções - estas, por parte de deputados do partido social-democrata Podemos; nenhum voto contrário; o parlamento unicameral da Venezuela é composto na íntegra por partidários do presidente Chávez. Vejam se isso não lembra as eleições do Iraque de Saddam Hussein, quando 99,9% dos eleitores o reelegiam todas as vezes em que eram convocados (onde estariam as minorias, a oposição e até mesmo a maioria - será que a longo prazo mesmo esta última teria escolha?).

No dia 25 de outubro passado, a Assembléia Nacional aprovou a reforma dos 69 artigos incluindo 11 disposições transitórias e a elaboração do informe final, sancionado hoje.

O Conselho Nacional Eleitoral, órgão ao qual está sendo entregue o documento, deve convocar imediatamente um referendo para domingo, 2 de dezembro.

Com a reforma, há o intenso fortalecimento do poder executivo, como sói acontecer em todas as ditaduras e nas democracias que se encaminham para metamorfosear-se em regimes autoritários. Vejam os pontos pertinentes aprovados:

1) possibilidade de reeleição sem limites para a Presidência da República (e a alternância de poder?).

2) aumento dos poderes do Presidente para decidir promoções militares, gerenciar as reservas internacionais e a política monetária junto ao Banco Central, como cortar zeros da moeda bolívar.

3) Chefe do Executivo nacional poderá nomear vice-presidentes para governar novas regiões e províncias - que agora poderão ser criadas por meio de decretos do Executivo - e estabelecer estatutos federais a cidades (ou seja, concentração de funções legislativas no executivo e centralização do poder político, fazendo com que os adminsitradores locais se subordinem ao poder central - onipotência do Executivo é ou não típica das ditaduras?).

Também foram alterados dispositivos constitucionais sobre os estados de exceção, que suspende os direitos a um julgamento justo e à informação nestas situações. O Parlamento decidiu manter quatro atributos do direito ao julgamento justo - o direito à plena defesa, à integridade pessoal, a ser julgado por juizes naturais e a não ser condenado a penas de mais de 30 anos -, mas manteve a restrição ao direito à informação durante os estados de exceção, que não terão limite de tempo. Ou seja, restrições unilaterais ao contraditório, ampla defesa e devido processo legal. "Bastante democrática" essa mudança.

Foi igualmente estabelecido um quinto do poder do Estado - o poder popular - e uma nova divisão política territorial.

Do que se alterou apenas a aprovação da redução da idade mínima para o voto, de 18 para 16 anos e do limite de 36 horas para a jornada de trabalho semanal e a criação de um sistema de assistência social para os trabalhadores informais parecem ter sido mudanças positivas. Do contrário, não se explicaria a popularidade que Chávez de fato possui.

Para analistas políticos que pensem sem pré-conceitos sobre o tema, não é difícil perceber o quanto Hugo Chávez, torno a dizer, Presidente da Venezuela eleito democraticamente, está a passos largos para se tornar o mais novo ditador sul-americano, paradoxalmente se utilizando dos mecanismos democráticos para isso (não é a primeira e provavelmente não será a última vez que isso acontece). Se discordam de mim, leiam Hannah Arendt: As Origens do Totalitarismo, Karl Popper: A Sociedade Aberta e seus Inimigos e George Orwell: 1984 e A Revolução dos Bichos (realidade e ficção se misturando de forma a se confundirem) e reflitam a respeito.

Na minha modesta forma de entender, quatro são os fatores que podem levar alguém à crença de que Chávez seja um democrata:

1) ignorância - no sentido de desconhecimento: nada que boas leituras e reflexões não possam suprir.

2) ingenuidade - o sujeito de extrema boa-fé que acredita que o fato de Chávez promover políticas públicas de assistência à população venezuelana pobre o faz automaticamente um governante sensível e preocupado com seu povo: também recomendo mais leitura e reflexão.

3) cegueira ideológica - esse é mais difícil, pois tende a crer que porque Chávez é anti-EUA, isso automaticamente o faz bom, um baluarte do socialismo e da igualdade, defensor dos fracos e oprimidos (gostaria de saber o que as mulheres do Irã devem pensar quando o mandatário venezuelano elogia Ahmadinejad e os aiatolás como grandes defensores dos excluídos): além de leitura e reflexão, esse precisa ter mais humildade e descer de suas certezas dogmáticas, ponderando com bom senso e razoabilidade tudo o que está em discussão (muitos desses podem ler este escrito e já tirar a conclusão apressada e equivocada de que defendo Abu Graib e Guantánamo e sou a favor de George Bush - em minha opinião, um dos piores presidentes da história norte-americana). Se forem sinceros de alma, pode ser que mudem e dêem razão aos fatos.

4) má-fé - aí não tem jeito: trata-se do sujeito que por puro oportunismo ou para justificar suas atitudes e posições políticas, aceita qualquer coisa. Aí não há leitura ou reflexão que dê solução. Como afirmei em post anterior, com mentirosos não dá para argumentar: mentirosos não argumentam, simplesmente mentem.

Espero que o leitor deste esteja na pior das hipóteses incluído nos três primeiros fatores. Se não estiver em nenhum deles (excluído também o no. 4, por óbvio), tanto melhor.


"Um homem que mente para si mesmo, e acredita nas suas próprias mentiras, se torna incapaz de reconhecer a verdade, tanto nele quanto em qualquer outra pessoa, e termina perdendo o respeito por si mesmo e pelos demais. Ao perder o respeito pelos outros, se torna incapaz de amar."
Fiódor Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Decisão exemplar

Olha aí, há muita gente fazendo bom trabalho no Judiciário. Não conheço o Juiz de Direito Rafael Gonçalves de Paula, da 3a. Vara Criminal de Palmas /TO, mas achei muito feliz a decisão por ele proferida e adiante transcrita (recebi por e-mail de meu amigo Thomaz Pinheiro):

"Trata-se de auto de prisão em flagrante de Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha, que foram detidos em virtude do suposto roubo de duas melancias. Instado a se manifestar, o Sr. Promotor de Justiça opinou pela manutenção dos indiciados na prisão.

Para conceder a liberdade aos indiciados, eu poderia invocar inúmeros fundamentos: os ensinamentos de Jesus Cristo, Buda e Gandhi, o Direito Natural, o princípio da insignificância ou bagatela, o princípio da intervenção mínima, os princípios do chamado Direito Alternativo, o furto famélico, a injustiça da prisão de um lavrador e de um auxiliar de serviços gerais em contraposição à liberdade dos engravatados e dos políticos do mensalão deste governo, que sonegam milhões dos cofres públicos, o risco de se colocar os indiciados na Universidade do Crime (o sistema penitenciário nacional)... Poderia sustentar que duas melancias não enriquecem nem empobrecem ninguém. Poderia aproveitar para fazer um discurso contra a situação econômica brasileira, que mantém 95% da população sobrevivendo com o mínimo necessário, apesar da promessa deste Presidente que muito fala, nada sabe e pouco faz. Poderia brandir minha ira contra os neo-liberais, o consenso de Washington, a cartilha demagógica da esquerda, a utopia do socialismo, a colonização européia... Poderia dizer que George Bush joga bilhões de dólares em bombas na cabeça dos iraquianos, enquanto bilhões de seres humanos passam fome pela Terra...

E aí? Cadê a Justiça nesse mundo? Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante de tamanha obviedade. Tantas são as possibilidades que ousarei agir em total desprezo às normas técnicas. Não vou apontar nenhum desses fundamentos como razão de decidir... SIMPLESMENTE MANDAREI SOLTAR OS INDICIADOS... QUEM QUISER QUE ESCOLHA O MOTIVO! Expeçam-se os alvarás de soltura. Intimem-se."

A crítica da crítica

MVPB (não consegui identificar quem é), leitor(a) deste blog, fez um comentário muito interessante ao meu post anterior. Apesar de concordar com a maior parte do que eu disse, ele busca uma maior compreensão do porquê o brasileiro agir assim e reflete sobre a necessidade de apontarmos caminhos para sairmos dessa situação, para que a crítica possa também ter um viés propositivo.

Comungo de tuas preocupações, caro leitor, mas infelizmente não tenho uma fórmula precisa para mudarmos esse "jeitinho" em nossa cultura. Busco nas minhas humildes palavras ao menos tentar despertar a reflexão e diagnosticar o quanto nossas atitudes cotidianas refletem e contribuem para a perpetuação dessa cultura.

Mas não sou um pessimista, muito pelo contrário. Se o fosse, nem me daria ao trabalho de pensar sobre isso e divulgar tais pensamentos. Ao ter a honra de sua crítica e reflexão, me sinto bastante recompensado, pois ao menos podemos gradativamente ter maior consciência dos nossos problemas. Embora não seja um escrito propositivo, entendo que essa consciência se faz necessária, pois se não diagnosticamos com precisão o problema, a solução será sempre inadequada.

Em virtude de tais críticas é que esse país, apesar dos pesares, tem melhorado em alguns aspectos. Não ignoro, por exemplo, a sensível melhoria no setor público desde a Constituição de 1988, com mais e melhores servidores, juízes e membros do ministério público empenhados em trabalhar honestamente e com dignidade, buscando atender os anseios dos que os procuram. É verdade também que hoje em dia a impunidade já não é tão grande como antes: há juízes, políticos e empresários criminosos, outrora intocáveis, atrás das grades e com bens bloqueados. Muitos setores da sociedade também se manifestam contrariamente a esse estado de coisas, tomando iniciativas concretas para mudá-lo, como, por exemplo, as associações de defesa de direitos humanos e as ONGs ambientais.

Contudo, não há fórmula mágica e nesse contexto a crítica continua válida, ainda que desprovida de idéias que efetivamente solucionem o problema. Estas certamente virão do debate. Afinal, empreguemos nossa criatividade tupiniquim para construirmos um Brasil melhor para todos (será que fui utópico demais???).

domingo, 28 de outubro de 2007

Antikantismo à brasileira: Brasil como uma nação de idiotas pensando serem espertos


Estou realmente numa fase de profunda aversão à cultura do "jeitinho brasileiro". Já sou normalmente avesso a ela, mas há períodos em que fico mais intolerante ainda (logo eu que tanto falo em tolerância e diálogo). Mas, como afirma Paul Grice (citado por Eduardo Rabenhorst em seu blog), para que uma conversa possa ser chamada de diálogo, são necessários pelo menos três pressupostos: igualdade, sinceridade e efetividade do resultado dialógico. Não é possível se dialogar com alguém que se acha de antemão melhor que o outro. É igualmente difícil dialogar com os mentirosos; esses não argumentam, simplesmente mentem. E ainda não dá para dialogar com quem não quer em hipótese alguma efetivar o resultado do diálogo (lembro da fábula do lobo e do cordeiro, de La Fontaine, e as "razões do lobo"). O brasileiro em geral parece disposto a rejeitar de plano todos os pressupostos apontados por Grice. Se acha sempre melhor do que o outro, mente sem qualquer constrangimento e acredita que qualquer conduta é válida (seja ética ou antiética), desde que seja ele o beneficiado (cf. post anterior). Claro que há honrosas exceções (sempre me esforço para tentar ser uma delas, mas às vezes não é fácil), porém, me parece que não passam disso: exceções.

Semana passada, Gilberto Dimenstein fez uma afirmação no mínimo curiosa que demonstra esse estado de coisas: "O Brasil é uma nação de espertos que, juntos, formam uma multidão de idiotas" (http://www.acertodecontas.blog.br/). Concordo integralmente com o sentido da frase, embora inverteria os termos por pura precisão terminológica: trata-se de uma multidão de espertos formando uma nação de idiotas. Vejam se não tenho alguma razão: o brasileiro em geral é o cara que ultrapassa pelo acostamento quando enfrenta um engarrafamento na estrada (claro, ele é esperto e os que respeitam a fila são "otários"); é a mulher que entra na fila preferencial do supermercado (gestantes, idosos, deficientes físicos, mulheres com crianças de colo), mesmo com seu filho tendo ultrapassado os seis anos (claro, ela não vai ser "otária" de enfrentar uma fila enorme com carrinhos cheios); é o político que desvia verbas públicas para fazer caixa dois e enriquecer (claro, ele é esperto e vai aproveitar a "boquinha do poder" para se dar bem); é o juiz ou o deputado que utiliza o carro oficial para levar seus pertences à casa de praia no fim de semana (lógico, ele vai bem ser "otário" de gastar seu subsídio com gasolina e carro próprios, se tem à disposição carro e combustível financiado com os impostos da população). Os exemplos podem ser dados aos montes, de servidores públicos (o cara que "se garante" na estabilidade no emprego para nem aparecer na repartição, recebendo sem trabalhar - trabalhar pra quê? Ele é esperto o suficiente para ganhar seus vencimentos sem precisar fazer isso) a empregados privados (o sujeito que se apropria do que pertence ao patrão por que este é "rico" e ele "pobre"), passando também pelos empresários (o dono de empreiteira que suborna o agente público para vencer a licitação - ele vai bem ser "otário" de perder aquela compra pública superfaturada em 300 ou 400%? ou ainda o empresário que contrata estagiários para servirem à empresa como empregados, vai bem ser "otário" de assinar carteira de trabalho e pagar direitos trabalhistas?).

Fico refletindo. Embora eu não seja um kantiano, o célebre filósofo alemão escreveu na "Fundamentação da Metafísica dos Costumes", algo extremamente relevante do ponto de vista do agir concreto do cidadão civilizado: "Age segundo uma máxima tal que possas, ao mesmo tempo, querer que ela se torne lei universal. Age como se a máxima de tua ação pudesse ser erigida por tua vontade, em lei universal da natureza".

Imaginem vocês se esse conceito kantiano do imperativo categórico teria condições de ser aplicado às ações às quais fiz referência anteriormente (e a um monte de outras). Se aquele agir do brasileiro fundamentado no "jeitinho" se tornasse de fato uma premissa universal, o Brasil estaria ainda muito mais caótico. Mas parece que o antikantismo à brasileira é suficientemente danoso para produzir um enorme e monstruoso estrago. Que o diga a miséria e a violência que imperam no nosso injusto e desigual país.

Se todos os "espertos" brasileiros se esforçam ao máximo para se darem bem a qualquer custo (e danem-se os outros), o resultado é o que está aí: Brasil, nação de idiotas em que todos saem perdendo de alguma maneira. Ou será que o milionário preso em uma mansão ou um prédio de luxo, sem condições de sair às ruas por medo de seqüestro ou de levar um tiro, deixando seus filhos completamente trancafiados para não se exporem aos "perigos das ruas" é feliz dessa forma? A gaiola pode ser de ouro, mas continua a ser gaiola.

Não é à toa que o Brasil é o que é.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Luciano Huck, Mônica Veloso e o inconsciente coletivo brasileiro

Sou um crítico contumaz do cinismo da sociedade brasileira. Pode parecer incrível, mas tenho a impressão de que a indignação que os brasileiros generalizadamente demonstram contra a violência urbana e a corrupção dos políticos não tem nada a ver com republicanismo, civismo ou defesa da moralidade pública e da seriedade das instituições; é simplesmente uma profunda inveja dos que lá estão mamando e usufruindo das benesses da "república-mãe". Parece que o desejo da maioria dos compatriotas é que as coisas fiquem exatamente como estão, mas com eles no lugar dos Renans e Salgados de Oliveira, "traçando" mulheres como Mônica Veloso e aumentando em progressão geométrica as suas fortunas e tudo de bom que elas propiciam. Poucos parecem preocupados em construir um Estado democrático de direito que trabalhe efetivamente para a sociedade como um todo, apesar disso estar tão freqüentemente presente nos discursos. Obviamente, não possuo dados científicos sobre isso para afirmar se tenho ou não razão, mas me deparei com um interessante artigo de Renato Mezan, Psicanalista e Professor da PUC/SP, intitulado "Prazeres Expressos" (publicado no caderno Mais, da Folha de SP de 14/10/2007), cujo teor transcrevo aqui para reflexão dos leitores deste blog:

"O artigo em que o apresentador Luciano Huck protesta contra a insegurança nas cidades brasileiras [publicado na Folha em 1º/10] desencadeou uma polêmica considerável. Nela, porém, uma pergunta brilha pela ausência: por que um povo conhecido por sua impontualidade dá tanto valor a um relógio? E não se diga que é apenas a "elite" que o cobiça: os ladrões provavelmente o venderam a um receptador, mas nada impede que ele venha a adornar o pulso de um chefão da periferia.

O Rolex foi o primeiro relógio de pulso de precisão, fabricado na Inglaterra por um alemão chamado Wilsdorf; somente depois da Primeira Guerra é que a empresa se transferiu para Genebra. Wilsdorf era um ótimo artesão, e também um gênio da publicidade. Tendo aperfeiçoado um sistema à prova d'água, colocou um aquário na vitrina e ali deixava suas máquinas funcionando; num golpe de audácia, ofereceu uma delas a uma nadadora que iria cruzar o canal da Mancha -e o mecanismo agüentou firme as muitas horas no mar.

Função e imaginário

Desde o início, portanto, a marca ficou associada à excelência, mas igualmente à resistência, à elegância e à aventura. O curioso é que a mesma combinação de realidade e imaginário aderiu ao bisavô do Rolex: o relógio de bolso, inventado no século 18. Bárbara Soalheiro ("Como Fazíamos sem...", Panda Books, 2006), explica que os primeiros a ser fabricados custavam pequenas fortunas: assim, chegar na hora a um compromisso se tornou símbolo de status, já que indicava que o cidadão pontual era rico o suficiente para possuir um "watch".

A autora conta que era comum as pessoas comprarem um em sociedade, reservando um dia da semana para cada proprietário: nos outros, na ponta da corrente não havia nada -mas ninguém precisava saber disso...

Assim, no simples ato de usar um relógio coexistiram desde sempre funcionalidade e imaginário. Os meios de comunicação -pinturas e gravuras, depois romances e jornais- se encarregaram de o transformar num objeto de desejo. Mas o que, exatamente, se deseja nesse desejo?

A palavra "griffe" significa garra: é o leão que deixa na presa morta a marca do seu poder.

Como os poderosos são em pequeno número, usar um objeto de marca prestigiosa é também sugerir que pertencemos ao conjunto seleto dos que "podem" -e mandam. Eis por que, além de servir a fantasias de exibição fálica, a roupa, a caneta, o carro (e o relógio) se tornaram ícones identificatórios, indicando que seu portador faz parte de um grupo valorizado, do qual a maioria está excluída.

Nesse sentido, cumprem a mesma função que as marcas tribais, a circuncisão, os símbolos religiosos e políticos etc.

Ora, aquilo que começa nas altas rodas é rapidamente imitado pelas outras camadas da sociedade. Pense-se no terno de linho branco em voga no início do século passado: pouco importava que fosse leve e confortável. Tornou-se rapidamente símbolo de ócio -quem o usava não se sujava trabalhando-, e era esse o recado que passava quando vestido por um boêmio carioca. Curiosamente, no Brasil, a mensagem "sou importante" não é veiculada pela pontualidade, mas pelo seu oposto. Bárbara Soalheiro explica por quê: como aqui o tempo não era marcado por relógios particulares, mas pelos sinos da igreja, chegar atrasado (à missa ou a um encontro) era sinal de desprezo pelas obrigações -portanto, privilégio senhorial.

Episódio revelador

Se o Rolex está do lado do que a psicanálise chama exibicionismo (termo que não tem caráter pejorativo, apenas designando um dos destinos possíveis da libido), outro "fait-divers" da semana parece ligar-se ao seu par complementar: o voyeurismo. As fotos de Mônica Veloso despida excitaram a imaginação de muitos brasileiros (e talvez a inveja de muitas brasileiras). Mais uma vez, funcionalidade e aura se entrelaçam num episódio revelador.

À primeira vista, o que torna a jornalista desejável são as curvas sedutoras do seu corpo, que inspiram fantasias nas quais se oferece a quem a contempla. Mas inúmeras modelos adornam as páginas das publicações masculinas: por que então o auê em torno dessa?

Talvez haja aqui outro fator: ao nos entregarmos ao deleite de a olhar, colocamo-nos na mesma posição daqueles com quem ela teve relações. Ora, Mônica Veloso certamente teve outros namorados, mas é com o enlameado senador Calheiros que se identifica quem compra a "Playboy" ou acessa o site da revista. E que benefício nos traz essa identificação com Sua Excrescência? A resposta não é difícil: todos gostaríamos de poder exibir impunemente aquela postura arrogante, de poder pisotear impunemente as regras do convívio civilizado e de impor nossa vontade aos outros com a mesma truculência que o representante de Alagoas.

Ao comer com os olhos a mulher que foi dele, usufruímos por um instante dos prazeres que ele desfrutou. Mas apenas vicariamente: para nossa frustração, o superego, a polícia e o olhar reprovador dos outros limitam a realização desses desejos à esfera do devaneio.

Muitas outras questões, é claro, podem ser levantadas a partir de cada um desses episódios. Mas não deixa de ser interessante a perspectiva que eles abrem sobre nosso inconsciente. Ali, não nos basta ser amigos do rei: somos o próprio rei, o herói, o caubói -e nosso cavalo nem precisa falar inglês."