domingo, 5 de fevereiro de 2012

Patrulhamento do humor: uma vigilância indevida

Mais uma vez, o apresentador e humorista Rafinha Bastos se envolve em polêmica, desta vez relativa a uma piada em relação à deficiência. No DVD "A Arte do Insulto", Bastos diz em uma piada que internou seu pênis na APAE (Asasociação de Pais e Amigos de Excepcionais), depois de usar uma camisinha que causava retardo. Em razão disso, a Justiça proibiu a venda do referido DVD e ordenou o seu recolhimento.

Já falei aqui do Caso Wanessa Camargo, de modo que não voltarei a comentá-lo (quem quiser conferir: http://www.direitoecultura.blogspot.com/2011/10/caso-rafinha-bastos-censura-ao-mau.html). Mas o caso atual merece um comentário adicional.
Parece haver no Brasil um patrulhamento generalizado, inclusive judicial, em relação à correção política. Particularmente concordo com a ideia de se comportarem de forma politicamente correta as pessoas e instituições que estejam fazendo jornalismo, reportagens, pronunciamentos públicos, programas informativos (documentários, p. ex.), bem como no tratamento interpessoal e manifestações do pensamento em geral. Contudo, quando isso alcança o humor, bem ou mal feito, me parece uma indevida e equivocada intrusão censória em uma esfera que, em princípio, deve ser vista como livre desse tipo de intervenção política ou judicial.

Explicando melhor: o humor é quase sempre algo caricatural, exagerado e por vezes mentiroso mesmo. Pode ser irônico e sarcástico, inocente ou de "duplo sentido" e até combater ou reforçar estereótipos ou ideias equivocadas. Há piadas de bom e de mau gosto e, em minha opinião, essa daí do Rafinha Bastos se enquadra neste último tipo.

Todavia, é de se perguntar: é admissível punir o "mau gosto" com a proibição e/ou a censura? O que é bom ou mau gosto para mim, pode ser ou não ser para outras pessoas. E quem vai dizer o que é de bom ou mau gosto, o que é ou não ofensivo? A sociedade deve ser proibida de assistir ou ouvir algo porque alguém achou de mau gosto ou ofensivo?

Só para exemplificar: se o aparato estatal fosse baseado no meu "bom gosto" pessoal, eu proibiria, p. ex., a exibição do que considero talvez o programa mais fútil, imbecil e deseducador da história da TV brasileira, que é o Big Brother Brasil, da Rede Globo. Não consigo entender como um programa desses consegue ser campeão de audiência no Brasil. Mas há muita gente que gosta e se me perguntar se defendo essa proibição, afirmo categoricamente que não. Quem gosta de BBB tem todo o direito de assisti-lo, embora dificilmente contará com a minha companhia. Do mesmo modo quero ter o direito de ver programas que me interessam sem ser proibido por quem quer que seja. Prefiro fazer minhas próprias escolhas a permitir que alguém opte em meu lugar. Nisso sou convictamente liberal.

Fico pensando se japoneses, judeus, loiras e portugueses começarem a ingressar maciçamente com ações no judiciário por se sentirem ofendidos quando respectivamente falarem do tamanho do órgão genital masculino, da ganância/apego ao dinheiro ou da burrice/pouca inteligência (tudo suposições e estereótipos, por óbvio, que podem ou não serem verdadeiros nos casos concretos).

A piada de Bastos, assim como a "Casa dos Autistas", da MTV, são de mau gosto sim, mas deveriam ser rejeitadas pela sociedade com o repúdio e a não audiência e não com censura ou proibição. Achei, p. ex., um absurdo pais de crianças autistas em São Paulo processarem a MTV pedindo indenização e, de certo modo, ganhando financeiramente com a síndrome de suas crianças ao invés de tentarem, através de atuação do Ministério Público ou das associações uma condenação socialmente mais adequada como a exposição obrigatória de programas de esclarecimento sobre o autismo e seus tratamentos (cf. http://dezimprovisa.blogspot.com/2011/12/casa-dos-autistas-condenacao-da-mtv.html). Não obstante eu também ter um filho com autismo (os que acompanham o blog sabem), jamais me sentiria confortável em receber indenização por uma piada sobre autistas.

No caso de Bastos, parece até uma perseguição implacável. É um sujeito que nem merece toda essa mídia, pois não possui tanto talento assim. Mas a Justiça e os patrulheiros de plantão parecem esquecer coisas muito mais sérias e que realmente prejudicam as pessoas com "deficiência", como a falta de acessibilidade nos prédios para deficientes físicos, a falta de vagas nas escolas para crianças com necessidades especiais e/ou a cobrança de mensalidade mais elevada nos colégios particulares para a contratação de mediadores, a negação do custeamentos dos tratamentos adequados para eles pelos planos de saúde e outras mais que ocupariam espaço demasiado e o cansariam em excesso, caro leitor, se aqui fossem expostas à exaustão.

Aliás, poucos lembram que o próprio Rafinha Bastos, em um episódio do Programa "A Liga" (este de caráter sério e documental), denunciou as condições precárias de acessibilidade das pessoas com necessidades especiais, deixando ao final mensagem conclamatória em prol dos direitos dessas pessoas. Talvez tenha feito com isso até mais do que muito de seus censores pelas pessoas com "deficiência".

Não sou advogado dele (talvez até gostasse de ser, pois ele deve estar gastando uma nota com honorários), nem tenho procuração para defendê-lo, mas acredito que estão censurando velada ou abertamente sua atividade profissional. Indevidamente estão tornando-o um baluarte da liberdade de expressão.

Patrulhamento do humor cheira a censura e autoritarismo. Definitivamente não consigo concordar com isso.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"Lei Seca": entre boas intenções, problemas e inconstitucionalidades

Ganhou repercussão midiática o caso do flagrante de embriaguez ao volante feito por agentes do DETRAN/PE no Secretário de Transportes do Governo do Estado, Isaltino Nascimento. O que tem sido afirmado é que o referido membro do poder público estadual, diante do flagrante, se recusou a fazer o exame de alcoolemia, mais conhecido como "teste do bafômetro". Há, porém, da parte de testemunhas e dos agentes de trânsito o relato de que o Secretário estava com sinais muito claros de embriaguez, como forte hálito de álcool e olhos avermelhados.

Não cabe a mim entrar no mérito, político e/ou jurídico, do caso específico, pois não possuo elementos suficientes para falar dele, apenas o que diz a blogosfera e a mídia. Mas aproveito a ocasião para suscitar um debate que considero necessário.

Tenho destoado da quase unanimidade maniqueísta (para não ofender ninguém com a expressão rodrigueana da “unanimindade burra”) em torno da “Lei Seca” e venho sendo um dos poucos a criticarem-na com veemência, apesar de concordar com a sua ideia fundamental de punir quem dirige embriagado. Faço esta ressalva para que os maniqueístas de plantão não venham dizer que defendo o direito à embriaguez ao volante ou outras bobagens do gênero e menos ainda que estou defendo Isaltino Nascimento.
 
 
A ideia de se combater a combinação potencialmente fatal entre álcool e direção é, em tese, muito bem-vinda. Contudo, a denominada “Lei Seca” é repleta de problemas, além de injusta e desproporcional ao extremo. Os principais problemas, em minha opinião, são a sua flagrante desproporcionalidade entre condutas potencialmente danosas e a exigência de uma dosagem específica de álcool aferível pelo exame de alcoolemia para que haja a punição criminal.
 
 
A desporporcionalidade está em se criminalizar na mesma intensidade condutas cujos danos potenciais são inteiramente diversos. Punir com a mesma pena, criminal e/ou administrativa, um sujeito que tomou um chopp e outro que estava como descrito em relação ao Secretário, é, a meu ver, uma enorme aberração. O dano potencial que alguém realmente embriagado pode ocasionar em termos acidentários concretos é dezenas de vezes superior àquele que está apenas com reflexos ligeiramente alterados por ingestão de uma pequena quantidade de bebida alcoólica. A penalização precisaria guardar proporcionalidade em relação ao estado de embriaguez, tanto a administrativa (multa e/ou apreensão da CNH) como a criminal (reservada apenas para casos mais graves, diferentemente do que ocorre com essa esdrúxula banalização do direito penal no Brasil que criminaliza quase tudo para, na prática, punir muito pouco, todavia, isso é já é outro debate de implicações bem mais significativas).

A “Lei Seca”, não obstante ser produto de boas intenções, padece desses grandes males. Com a exigência de nível etílico numericamente especificado pune o cidadão praticamente sóbrio com a mesma severidade que o faz ao quase completamente bêbado. Ou ainda pior: se o primeiro que tomou um chopp ou uma taça de vinho, colaborar com as autoridades soprando o bafômetro não somente será multado e apreendida a sua CNH, como responderá a processo criminal e uma vez condenado levará para o resto da vida a pecha de “criminoso”, embora possa ser condenado a penas alternativas ou algo do gênero. O segundo, exatamente o caso (ao menos supostamente) do Secretário, em estado avançado de embriaguez, ficará com a CNH apreendida e pagará a mesma multa, mas não responderá a qualquer processo de natureza penal e será criminalmente um “ficha limpa”, ao contrário do primeiro, um autêntico “ficha suja”. É ou não algo profundamente injusto e desproporcional (e, em minha modestíssima opinião, inconstitucional)?

Infelizmente, o Brasil é fértil em leis draconianas e extremamente severas que caem no ridículo do desuso e do descrédito social com facilidade. É relevante lembrar que há poucos anos o adultério era legalmente considerado um crime passível de prisão e o crime de atentado ao pudor mediante fraude só podia ser cometido contra aquelas que se enquadrassem no anacrônico e risível conceito de “mulher honesta”...

Não sei se será o caso da “Lei Seca”, pois a fiscalização tem sido intensa e a “indústria de multas” nunca arrecadou tanto (penso que esse talvez seja o verdadeiro motivo dessa “preocupação” do Estado e das autoridades com o problema). Mas que a mesma é desproporcional na relação pena-conduta, disso não tenho a menor dúvida.

Seria muito mais justo, proporcional e simples se fosse feitas as seguintes modificações na Lei em questão:

1 – acabar com a obrigatoriedade da exigência de grau alcoólico específico para aferir a embriaguez ao volante.

2 – consequentemente, permitir que, através de provas testemunhais ou filmagens/fotografias, sejam constatados os sinais claros da embriaguez e com fundamento nessas provas, o sujeito flagrado – independentemente de soprar ou não no bafômetro – seja criminalmente indiciado e responda a processo penal, além das punições administrativas pertinentes.

3 – estabelecer as penalidades (administrativas e/ou criminais) proporcionalmente ao estado de embriaguez, aí sim aferível por bafômetro. Ou seja, o exame de alcoolemia poderia ser utilizado até como mecanismo de defesa da acusação de embriaguez, o que talvez até incentivasse os cidadãos parados em blitzes a fazerem o referido exame, pois quanto mais embriagado estivesse, mais rigorosa seria a pena e, inversamente, quanto menos próximo estivesse da embriaguez, mais branda seria a punição (o que há atualmente é um medo generalizado do bafômetro, pois vai que o sujeito comeu bombons licorosos ou um prato de filé ao molho de vinho e isso venha a ser acusado no etilômetro...).

Se tais modificações ocorressem, aquele primeiro sujeito seria punido de forma branda ou talvez nem mesmo sofresse punição e aquele segundo, como no caso comentado, não escaparia do indiciamento e do processo pela simples recusa à alcoolemia.

A "Lei Seca", em seus termos atuais, é inconstitucional e violadora da proporcionalidade presente no sistema constitucional, bem como na própria jurisprudência do Supremo Tribunal Federal brasileiro. É minha opinião, embora a maioria pareça surda a esse tipo de argumento que sequer tem sido considerado.

Fica ao menos o registro blogosférico.

Ps.: ao menos uma coisa boa - como foram agentes do próprio Estado os autores do flagrante, vê-se que o "você sabe com quem está falando?" está mais enfraquecido, o que é importante na edificação de uma cultura política mais republicana no Brasil.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Carta Aberta dos Professores da Faculdade de Direito do Recife

Segue abaixo a Carta atualizada dos Professores, embora continue aberta a adesões (atualizada em 31/01/2012 às 8:30)

"CARTA ABERTA DOS PROFESSORES DA FACULDADE DE DIREITO DO RECIFE/UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO SOBRE OS ACONTECIMENTOS DO DIA 20/01/2012
“E foram disparadas bombas de “efeito moral” e balas de borracha, tão inocentes quanto a sua capacidade de fazer um ser humano sangrar – no caso, um estudante.”

Essa não é a descrição de um filme político de Costa-Gavras, mas do que a cidade do Recife vivenciou na última sexta-feira, dia 20 de janeiro de 2012, na rua Princesa Isabel, em frente e em direção a um prédio centenário que é parte da vida jurídico-política do Brasil: a Faculdade de Direito do Recife e os estudantes que nela se reuniam, vitimizados pelo comportamento indevido e truculento da Polícia Militar de Pernambuco.

Os direitos individuais relacionados à liberdade moderna estão atrelados a um não-fazer do poder instituído em relação àquele espaço que passa a ser tutelado como sendo um direito fundamental de liberdade para todos, fazendo com que a positivação de tal direito fundamental exija um espaço de impenetrabilidade da estrutura de poder, a fim de que esse direito não seja restringido ou tolhido. E os direitos à livre manifestação e à liberdade de reunião para fins pacíficos estão incluídos nesse rol, garantidos pela Lei Maior brasileira em seu art. 5º, IV e XVI.

O protesto dos estudantes contra o aumento das passagens de ônibus é legítimo e constitucional e um dos desdobramentos da liberdade vivenciada num Estado Democrático de Direito que o Brasil pretende, mas não consegue, plenamente, ser. Se vivenciássemos o pleno gozo dos nossos direitos civis e políticos não teríamos alunos e cidadãos feridos pelo simples fato de quererem exercer diretamente a cidadania por meio de suas livres manifestações nos espaços públicos.

O gesto da Polícia Militar de Pernambuco traduz como as relações de poder se constroem no Brasil e demonstra o quão incipiente e frágil ainda é a nossa democracia. O fato de que essa agressão tenha tido lugar na Casa onde se pretende que os direitos fundamentais sejam ensinados dá azo a uma amarga ironia que, por outro lado, tem a vantagem de nos fazer mais atentos à necessidade de vigilância aos valores que defendemos e pelos quais lutamos.

E nós, professores da secular Faculdade de Direito do Recife, que nunca compactuamos com os movimentos relacionados às supressões da liberdade, repudiamos a ação da Polícia Militar de Pernambuco e conclamamos as autoridades competentes a agirem energicamente contra tais atos que maculam e vilipendiam a democracia e os direitos humanos no Brasil.

Recife, 24 de janeiro de 2012

Subscrevem esta os Professores (em ordem alfabética): Alexandre da Maia, Alexandre Freire Pimentel, André Rosa, Artur Stamford da Silva, Aurélio da Bôaviagem, Bruno Galindo, Cláudio Brandão, Cláudio César, Eugênia Cristina Nilsen Ribeiro Barza, Everaldo Gaspar Andrade, Fábio Túlio Barroso, Francisco de Barros e Silva Neto, Frederico Koehler, George Browne, Gustavo Ferreira Santos, Ivanildo Figueiredo, Ivo Dantas, João Paulo Allain Teixeira, Larissa Leal, Larissa Medeiros, Leonardo Carneiro da Cunha, Liana Cirne Lins, Luciano Oliveira, Maria Antonieta Lynch de Moraes, Maria Regina Pinto Ferreira, Marília Montenegro, Ricardo de Brito Albuquerque Pontes Freitas, Roberto Paulino de Albuquerque Jr., Sady Torres Filho, Sérgio Torres Teixeira, Sílvio Neves Baptista, Torquato Castro Jr., Zélio Furtado."

E a música continua tão atual...

domingo, 25 de dezembro de 2011

A seletividade ideológica: entre cegueira e cinismo

"19 de dezembro de 2011
Estimado camarada Kim Jong Un
Estimados camaradas do Comitê Central do Partido do Trabalho da Coréia

Recebemos com profundo pesar a notícia do falecimento do camarada Kim Jong Il, secretário-geral do Partido do Trabalho da Coreia, presidente do Comitê de Defesa Nacional da República Popular Democrática da Coreia e comandante supremo do Exército Popular da Coreia.

Durante toda a sua vida de destacado revolucionário, o camarada Kim Jong Il manteve bem altas as bandeiras da independência da República Popular Democrática da Coreia, da luta anti-imperialista, da construção de um Estado e de uma economia prósperos e socialistas, e baseados nos interesses e necessidades das massas populares.

O camarada Kim Jong Il deu continuidade ao desenvolvimento da revolução coreana, inicialmente liderada pelo camarada Kim Il Sung, defendendo com dignidade as conquistas do socialismo em sua pátria. Patriota e internacionalista promoveu as causas da reunificação coreana, da paz e da amizade e da solidariedade entre os povos.

Em nome dos militantes e do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) expressamos nossas sentidas condolências e nossa homenagem à memória do camarada Kim Jong Il.

Temos a confiança de que o povo coreano e o Partido do Trabalho da Coreia irão superar este momento de dor e seguirão unidos para continuar a defender a independência da nação coreana frente às ameaças e ataques covardes do imperialismo, e ao mesmo tempo seguir impulsionando as inovações necessárias para avançar na construção socialista e na melhoria da vida do povo coreano.

Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB e Ricaro Abreu Alemão secretário de Relações Internacionais do PCdoB"

A nota oficial acima, proveniente de um dos mais tradicionais partidos brasileiros (aliás, um dos poucos que podem ser considerados ideológicos e programáticos, longe do mero oportunismo eleitoreiro), demonstra aquilo que costumo denominar de seletividade ideológica. Explico-me: o fanatismo e o extremismo ligado a muitos dos ideólogos faz com que em nome da ideologia defendida se faça uma curiosa acepção de fatos e interpretações dos mesmos. Apenas para ficar em exemplos mais clássicos, se o sujeito é "de direita", afirma que o comunismo é um regime criminoso que levou milhões de pessoas à morte, bem como torturou e perseguiu outras tantas. Contudo, ignora, minimiza ou até justifica ações autoritárias de governos fascistas e/ou de direita mundo afora. O oposto também ocorre. Se o cidadão é "de esquerda", as atrocidades dos governos militares da América Latina, p. ex., são abomináveis, mas aquelas cometidas por Cuba, União Soviética ou pelos antigos regimes comunistas do leste europeu são ou "fruto da conspiração da mídia capitalista e imperialista" ou justificáveis pela finalidade de construção de um regime socialmente mais justo, seja lá o que isso signifique.

A nota do PC do B reflete isso. Muitos militantes desse partido foram vítimas de algumas das maiores atrocidades da ditadura militar brasileira, como no caso da Guerrilha do Araguaia, recentemente objeto de condenação do Estado brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos. O PC do B reclama, e com razão, os mortos e desaparecidos desse episódio, bem como condena os atos arbitrários, as torturas e as execuções perpetradas pelos militares brasileiros da época e seus colaboradores. É um partido que historicamente sempre foi perseguido e vítima do autoritarismo no Brasil.

Contudo, é acometido da seletividade ideológica da qual falamos. Condena os atos da ditadura brasileira, do regime de Pinochet no Chile, dos franquistas na Espanha e do salazarismo em Portugal, bem como dos nazistas e fascistas em geral. Mas fecha os olhos ou minimiza as gigantescas atrocidades cometidas por "camaradas" da mesma ideologia como Stalin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro ou, como na nota transcrita, os "camaradas" Kim Il Sung, Kim Jong Il e agora Kim Jong Un da estranha e bizarra dinastia comunista (algo profundamente antitético e contraditório) da Coreia do Norte.

Esse país dispensa maiores comentários. Além de ser um dos mais (se não o mais) fechados países do mundo, avesso a debater seus problemas e a admitir os erros de sua classe governante, possui todos os ingredientes das clássicas ditaduras totalitárias (a partir das reflexões de pensadores como Hannah Arendt, Karl Popper e Franz Neumann): culto à personalidade do líder (a foto deste post é bem sintomática a respeito), partido único, inexistência de oposição organizada e legalizada, terror e espionagem generalizados contra seus próprios cidadãos, polícia política, doutrinação marxista-leninista com a interpretação dos líderes norte-coreanos com exclusão de qualquer outra teoria ou doutrina. O stalinismo continua vivo no totalitarismo norte-coreano onde os "crimes políticos" podem ser objeto até de condenação à morte. Relatos dos poucos fugitivos que conseguem êxito do regime demonstram a existência de campos de concentração, denominados ironicamente de "campos de trabalho" ou "de reeducação" (lembremos do Arbeit macht frei de Auschwitz), não obstante o país inteiro ser, de certo modo, um grande campo desse tipo.

Jamais diria que o imperialismo norte-americano não existe ou que tudo o que os EUA defendem seria em nome da liberdade. Todavia, acredito ser inaceitável que, pelo fato de se ser anti-EUA, se possa defender um regime tão autoritário como o da Coreia do Norte, chegando a chamar de "economia próspera" um país que mata milhares de seus cidadãos de fome para aparelhar suas forças armadas e sua classe dominante (a cúpula do Partido).

Não obstante o profundo respeito que nutro por vários dos militantes do PC do B que conheço e admiro (muitos são pessoas sérias e honestas muito acima da média da política nacional) vejo a nota desse Partido como algo tragicômico. É do tipo "se a realidade contraria minha doutrina, dane-se a realidade", demonstrando uma extrema cegueira ideológica da maioria de seus militantes (se realmente a nota reflete o pensamento majoritário da referida agremiação partidária) ou, o que seria ainda pior, um  oportunista cinismo (no sentido pejorativo mesmo e não no sentido grego antigo) por meras conveniências político-ideológicas.

Os leitores desse blog sabem que, destarte o fato de me considerar um sujeito de esquerda, sou avesso a ditaduras e regimes autoritários, seja de que coloração ideológica forem (sou democrata antes de ser de esquerda). O extremismo autoritário só conduz à opressão e à aniquilação das liberdades e, se estas são suprimidas, de nada adiantam os demais direitos. Com a falta de liberdade, sequer saberíamos se esses realmente são respeitados, como infelizmente foi e é comum nos regimes comunistas.

Sinceramente não festejo nem lamento a morte de Kim Jong Il. Não festejo por que não tenho por hábito festejar mortes de quem quer que seja, ainda mais em um caso destes em que aparentemente não trará mudanças relevantes para o povo da Coreia do Norte. E não lamento por que acho que o mundo não perde nada com a morte de um governante autoritário como ele.

Feliz Natal a todos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Saudosismo que não dá para não ter

Ainda em homenagem ao "Doutor", aí uma amostra dos lances e gols da melhor seleção do mundo de todos os tempos, a épica seleção brasileira de 1982, grandiosos e imortais mestres do futebol como arte.

Não tem como não ser saudosista diante do paupérrimo futebol pasteurizado e utilitarista de nossos dias...

Parabéns aos produtores do vídeo. Com o fundo musical e a competente seleção das cenas, dá para ter uma pequena ideia do que era assistir ao vivo esses deuses jogarem. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Mercantilização do sistema penal brasileiro

Na próxima semana, quarta-feira dia 14, as 9h na sala dos Cursos de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Pernambuco (R. do Hospício, 371, Bloco C, 2o. Andar), ocorrerá a defesa pública da tese de doutorado de Gustavo Barbosa de Mesquita Batista, intitulada "Mercantilização do sistema penal brasileiro". O referido trabalho foi orientando pelo Prof. Dr. Luciano Oliveira e terá como membros examinadores presentes na banca os Profs. Drs. Artur Stamford, Ricardo Brito, Clarissa Nunes Maia e Marília Montenegro, além deste que escreve.

Quem tiver oportunidade e interesse não deve deixar de assistir. Provavelmente será um debate muito interessante sobre o tema, considerando a qualidade do trabalho e de seu autor. Gustavo Batista é penalista e criminólogo, Professor Assistente da Universidade Federal da Paraíba, ex-Presidente da Comissão de Direitos Humanos da mesma instituição e tem uma vasta experiência prática e densidade teórica sobre o assunto. Um intelectual dos bons, refinado, culto, inteligente e de altíssimo nível.

Não sei bem o que estou fazendo como examinador nessa banca, mas tenho certeza que vou aprender muito.

Vale a pena para quem quiser conferir.

"Sem Sócrates, um mundo cada vez mais careta"

Morreu ontem um dos maiores jogadores de todos os tempos, além de um dos mais originais em termos de estilo de jogo. O "Doutor Sócrates", como ficou conhecido por ter feito medicina antes de fazer carreira no futebol, fez parte da melhor seleção que já vi jogar, apesar de não ter sido campeã. A eliminação do timaço de 1982 pela Itália é até hoje lembrado como uma das maiores injustiças da história do futebol. Eu era criança, e lembro que chorei muito quando o Brasil perdeu aquele jogo, pois na minha inocência infantil, o time de Sócrates, Zico, Falcão e Júnior, comandado por Telê Santana, parecia impossível de ser derrotado. Ali eu percebi pela primeira vez que os mestres do futebol arte eram humanos e não deuses e por isso podiam falhar como falharam.

Mesmo assim, Sócrates encantou na seleção como já havia encantado no Corínthians. E ainda que não tenha conquistado nenhum título realmente importante, é reverenciado como se o tivesse conseguido. Sócrates não foi campeão brasileiro pelo Timão, nem mundial pela seleção. Mas seu futebol refinado, seus precisos toques de calcanhar, sua espetacular inteligência e visão de jogo jamais serão esquecidas por qualquer um que o tenha visto jogar.

Uma pena que a maior de suas derrotas não tenha sido no futebol, mas na saúde. O alcoolismo derrubou o "Doutor". Que fiquem sua autenticidade e originalidade para sempre.

Segue texto do Blog do Menon (http://trivela.uol.com.br/blog/menon), uma grande homenagem ao ídolo "eternamente dentro de nossos corações", como diz a letra do hino corinthiano:

"SEM SÓCRATES, UM MUNDO CADA VEZ MAIS CARETA

Sócrates planejava jogar golfe - praticar esporte em contato com a Natureza - ter duas filhas - Valentina e Carolina, para juntar-se a Gustavo, Marcelo, Eduardo, Marcos, Junior e Fidel - e participar de programas contra o álcool, em quem, após duas internações no hospital, passara a reconhecer um inimigo e mortal e não mais o alegre companheiro de toda a vida. Não conseguiu. Morreu hoje de cirrose.
É importante resistir aos clichês e dizer o triste, a tragédia de maneira bem dura. Sócrates não há mais. Nada daquele papinho de que foi para o céu formar uma dupla de meias com Didi, ele nem gostaria disso. É hora apenas de dizer que um dos grandes está morto. Ah, também não vale cair na hipocrisia de unir sua morte à conquista corintiana que deve se conceretizar algumas horas depois de sua morte. O Doutor nao tem nada a ver com esse Corinthians de Ronaldo e Andrés. Esse é o poderoso, é o mainstream. Sócrates é a contestação, o underground. "Não sou benquisto no Corinthians", disse Sócrates à revista ESPN há pouco tempo. É lógico. Ele não andaria com Ricardo Teixeira de um lado para outro.
Por mais que Luis Paulo Rosenberg bole alguma frase para colocar na camisa do Corinthians hoje, e por mais sincera que seja a homenagem, Sócrates não gostaria dela. Ele era de outra turma.
Lamentar a partida de um gênio do esporte do povo é importante, mas a verdade é que Sócrates não fazia mais falta dentro de campo. É lógico, estava aposentado há tanto tempo..... Ele fará falta como cidadão. "Quero continuar incomodando, essa é minha missão", nos disse na mesma entrevista. O passe preciso de calcanhar já era uma lembrança. A ela, logo vai se juntar outra. A do cidadão indignado, sempre pronto a denunciar o lado torto da vida.
Sócrates, da Democracia Corintiana, Sócrates das Diretas Já, necessário dizer, era um anacronismo nesse país de situação sem sonhos e de oposição sem bandeiras. Sócrates, gênio de 82, era algo estranho a esse futebol de evangélicos, de cordeirinhos, de gente sempre buscando o sucesso, do "se dar bem".
Agora, a banda dos contentes pode tocar mais à vontade. Aquele gênio que apontava o dedo e dizia que aquilo estava desafinado, morreu. E o Brasil fica um pouco mais careta."